Ciência

Revelados os grandes obstáculos a profissionais que lidam com crianças e jovens LGBTI+

Um estudo conduzido por uma equipa do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra (UC) revelou os dois grandes obstáculos ao trabalho dos profissionais que trabalham na área da autodeterminação de género de crianças e jovens em Portugal.

Esses grandes obstáculos são a falta de confiança nos serviços e a ausência de formação específica, de acordo com o estudo, realizado no âmbito de um projeto para diagnosticar e intervir para combater a discriminação que afeta crianças e jovens LGBTI+ em cinco áreas: escola, saúde, media, espaços públicos e instituições de apoio à criança e famílias.

“É evidente a falta de recursos, sobretudo de formação e informação, por parte de profissionais envolvidos na implementação da Lei de Autodeterminação, o que gera obstáculos à igualdade de tratamento desta população em áreas como a educação, saúde, intervenção familiar, media e espaço público e comunitário”, salientou a coordenadora da equipa portuguesa, Ana Cristina Santos.

Os resultados preliminares apontaram um dado “que nos deve fazer refletir”, salientou a investigadora: “É a total ausência de questões LGBTI+ na formação académica e curricular de grande parte destes profissionais, com mais de metade a admitir nunca ter feito, posteriormente, uma atualização de conhecimentos ou uma formação específica para o trabalho com crianças e jovens LGBTI+”.

Destes resultados, “torna-se clara a necessidade de formação em diversidade sexual e de género direcionada a profissionais de todas as áreas”.

“Com efeito, entre os fatores que mais dificultam a intervenção, surgem destacados a falta de formação para trabalhar especificamente com crianças e jovens LGBTI+ (81.2%), a falta de conhecimento sobre práticas afirmativas/recursos LGBTI+ (78.3%), a falta de conhecimento por parte das/os técnicos/as acerca dos serviços disponíveis (69.8%) e de questões LGBTI+ em geral (66.7%), e a falta de serviços para crianças LGBTI+ (60.9%). E, de facto, 40% dos profissionais que responderam ao Inquérito desconhece a existência de qualquer serviço local, regional ou nacional dirigido a crianças e jovens LGBTI+”, complementou.

No setor da educação, o estudo revelou que 73 por cento dos profissionais inquiridos referem nunca ter recebido qualquer formação que lhes permita apoiar um/a estudante LGBTI+ em meio escolar.

“Igualmente alarmante será o facto de mais da metade destes profissionais revelar não ter acesso a recursos ou políticas específicas para crianças LGBTI+ na instituição onde trabalha, a fim de garantir uma intervenção abrangente e adequada”, comentou a investigadora.

Na área da saúde, a conclusão mais preocupante, de acordo com Ana Cristina Santos, prende-se com a falta de confiança nos serviços: três quartos dos profissionais de saúde que participaram no estudo “consideram que a maior dificuldade que as crianças e jovens LGBTI+ enfrentam no acesso aos cuidados de saúde é a falta de confiança nos serviços”.

“Urge, portanto, implementar medidas centradas na pessoa paciente, que permitam trabalhar a proximidade e a relação de confiança, para que crianças e jovens LGBTI+ entendam o consultório médico enquanto espaço seguro, inclusivo e livre de violência”, frisou.

Perante os resultados obtidos nesta investigação, a especialista do CES adverte que existe ainda um caminho por fazer no que diz respeito “à criação e promoção de espaços seguros para as crianças LGBTI+, daí que o sucesso da Lei da Autodeterminação de Género dependa da implementação de planos de ação LGBTI+ nas instituições, de modo a apoiar uma intervenção eficaz junto destas crianças e jovens”.

Iniciado em 2019, o projeto ‘Diversity and Childhood’ é financiado pela Comissão Europeia até 2021.

Em Portugal, a equipa de investigação é composta por Ana Cristina Santos (coordenadora), Mafalda Esteves (cocoordenadora) e Alexandra Santos e conta com o apoio do Ministério da Educação e da Associação de jovens LGBTI e apoiantes rede exaequo.

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