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Operários da cortiça em protesto antes de requererem ao Governo que medeie a negociação

Trabalhadores e sindicatos da indústria corticeira reuniram-se hoje em protesto junto à Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR) reclamando uma subida salarial mínima de 20 euros antes de avançarem para a requisição da arbitragem do Governo nas negociações.

Em causa estão os termos do novo Contrato Coletivo de Trabalho (CCT) do setor, em que os operários querem ver refletidos os crescentes lucros das empresas corticeiras, exigindo por isso “um mínimo de 20 euros” de aumento para as categorias salariais mais baixas.

É essa a pretensão dos cerca de 60 trabalhadores que hoje se reuniram, à chuva, em frente à associação do setor, onde o presidente do Sindicato dos Operários Corticeiros do Norte (SOCN), Alírio Martins, revelou à Lusa: “Depois de seis reuniões em que não chegámos ao que queríamos porque a APCOR não passa dos cerca de 17,45 euros de aumento, vamos agora requerer o processo de conciliação ao Ministério do Trabalho, para que seja ele a fazer de árbitro nas negociações”.

Outras reivindicações do SOCN são o pagamento de diuturnidades a todos os trabalhadores com mais de seis anos de antiguidade, para “acabar com a discriminação atual” que só aplica esse benefício a quem exercer funções administrativas, e a melhoria dos apoios disponíveis para quem é afetado por doenças profissionais.

Outro aspeto que Alírio Martins quer ver no novo CCT é o aumento do subsídio diário de refeição para seis euros, enquanto a APCOR não quer ultrapassar os 5,65 euros, e “a proibição explícita do assédio sexual ou moral” no local de trabalho, para “passar a mensagem de que esse comportamento não é aceitável”.

O sindicalista afirma, contudo, que a associação patronal “só está disponível para falar de dinheiro e não aceita nenhuma dessas outras propostas”.

Contactada pela Lusa, a APCOR – que representa cerca de 280 empresas do setor, 80 por cento da produção nacional de cortiça e mais de 85 por cento das exportações, cobrindo todos os subsetores da indústria – insiste que os sindicatos estão a recusar “o aumento salarial do século” na economia corticeira.

Defendendo que os últimos valores chumbados pelos sindicatos refletiam um aumento que “já ascendia a 2,25 por cento e que reforçava a proposta salarial anterior”, a APCOR diz ser, entre as duas partes da negociação, “a única que está, de facto, a fazer um esforço para alcançar o acordo”.

O presidente da associação, João Rui Ferreira, realça, aliás, que o aumento proposto de 17,45 euros representa “três vezes o valor da inflação prevista para o ano de 2019, garantindo o pleno poder de compra dos trabalhadores”.

O líder da APCOR argumenta ainda que os valores propostos pela estrutura patronal “estão nos limites do sustentável” e refletem o que já é “um nível de remuneração bem acima da média nacional”, no que “o próprio subsídio de alimentação é um dos mais altos do país”.

Para João Rui Ferreira, a resistência que trabalhadores e sindicatos vêm demonstrando nas negociações indicia, por isso, que “o período eleitoral pode estar a ter influência no que seria o normal processo de negociação” – até porque “a APCOR sempre fez questão de renovar o CTC anualmente, enquanto outros setores estão seis ou sete anos sem o alterar”.

Referindo que questões como os apoios a doenças profissionais e a proibição de assédio laboral “ultrapassam a lógica do CTC e devem ser confiadas às instituições competentes”, o presidente da APCOR conclui que é tempo de os sindicatos colocarem de lado “outras motivações” para voltarem a “colocar o seu foco no interesse dos trabalhadores”.

A greve que hoje decorreu na indústria da cortiça reivindica as mesmas mudanças abordadas nas negociações do CCT.

A APCOR afirma, contudo, que essa paragem não teve “nenhum impacto” no setor em termos operacionais e que, até às 16:30, a taxa de adesão se situava “abaixo dos 3 por cento”.

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