Desporto

“A política é vista como uma competição entre equipas”, explica Simon Kuper

O jornalista e escritor holandês Simon Kuper, especialista nas relações entre futebol e política, defende que os políticos contemporâneos adotaram comportamentos do fenómeno desportivo que estão a transformar a relação com os próprios eleitores.

De passagem por Lisboa, para participar numa conferência, o autor de títulos de referência no futebol, como ‘Soccernomics’ e ‘Football Against the Enemy’, citou a atualidade política dos Estados Unidos como um exemplo desta evolução, mais visível com a ascensão de Donald Trump à presidência.

“Várias coisas na política moderna são inspiradas no desporto. Se olharmos para um comício de Donald Trump, as pessoas usam bonés com o slogan ‘Make America Great Again’ e parecem-se com adeptos a utilizarem o ‘merchandising’ de uma equipa. Quando alguém diz ‘Trump está a mentir’ ou ‘Trump foi corrupto na questão da Ucrânia’, eles respondem, basicamente, que são adeptos de Trump e que não serão persuadidos pelas críticas. Vão dizer ‘somos fãs’ e, tal como os adeptos, vão continuar fiéis, mesmo nos tempos mais difíceis”, sustenta.

Sublinhando que o presidente norte-americano estabeleceu uma relação essencialmente “emocional” com o eleitorado, Simon Kuper entende que essa situação reduziu a importância das questões políticas para as pessoas.

“A política é vista como uma competição entre equipas e as eleições são noticiadas como um grande jogo e simplificadas. Retiram-se do contexto temas políticos complexos, como o que fazer com o serviço de saúde, e torna-se em algo como ‘a minha equipa contra a tua equipa’ e ‘eu ficarei ao lado da minha equipa, aconteça o que acontecer'”, explica.

Uma realidade que veio acentuar essa polarização política foi a ‘explosão’ das redes sociais e o seu aproveitamento nas campanhas eleitorais. Embora a mesma polarização se possa assistir no futebol, Simon Kuper desvaloriza esse peso pela efemeridade do próprio desporto.

“As redes sociais são poderosas, mas penso que não fazem assim tanta diferença no futebol, na sua perceção e nas suas possibilidades em termos políticos. O aspeto relevante do sucesso do futebol é ser efémero. Quando a nossa equipa ganha a Taça ou o nosso país ganha o Europeu, é uma experiência coletiva incrível, mas o impacto na vida das pessoas é muito breve. É muito complicado tornar o futebol num facto político duradouro”, sentencia.

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