Bruno Neves

Angola – Um país à beira do abismo

Sejamos sinceros: Angola caminha, a passos muito largos, para o abismo. Ou melhor, permitam-me que complete um pouco mais a frase anterior: o povo angolano está a ser conduzido para o abismo pelo seu líder absoluto que, infelizmente, parece estar vendado. Sim, porque apenas isso justifica o estado actual de um dos mais promissores países africanos. Esta é uma crónica dedicada ao presente, e ao futuro, de Angola (mas, indirectamente, também de Portugal). Para ler, mas acima de tudo, para reflectir.

Angola é um país de sorte e de azar. Sorte por estar geograficamente situado num local rico em petróleo. Azar por ter os governantes que tem. No fundo é o chamado “não se pode ter tudo”, não é verdade? Que o dinheiro proveniente do petróleo não é aproveitado para desenvolver verdadeiramente o país já todo o mundo sabe. O que talvez não saiba é que esse dinheiro pode parar de entrar nos cofres angolanos muito em breve. E isso, como deve imaginar, pode trazer graves consequências num futuro muito próximo.

Acha que estou a exagerar? E se eu lhe disser que o preço dos imóveis em Luanda caiu para metade? Pois. E se a isso juntar o facto de centenas de empresas internacionais estarem a demitir funcionários a um ritmo alucinante dia após dia? Pois. E se a tudo isto eu ainda juntar a subida do desemprego, a escassez do dólar pelas ruas da capital angolana e o número cada vez menor de turistas endinheirados dispostos a gastar milhares de euros por dia? Pois. É que os sinais são tantos, e tão evidentes, que tornam-se impossíveis de ignorar ou desvalorizar.

Mas não foram só os muito ricos que sofreram, na pele, as consequências de uma economia que navega ao sabor dos ventos chineses (escusado será dizer que a classe média foi obrigada a despertar para a realidade). E isso trouxe mudanças na sociedade angolana. Por exemplo: os profissionais ambiciosos que não se importavam com a política enquanto a economia estava a crescer, estão, pela primeira vez, a apoiar publicamente os activistas que estão a sair às ruas. Se isto não é uma mudança profunda em Angola não sei o que será…

E tudo por causa do petróleo. É que se, por um lado, o ouro negro trouxe mais saúde, e um novo dinamismo, à economia angolana, por outro tornou-a dependente dessas mesmas receitas. E agora que as receitas estão a diminuir vertiginosamente (fruto do baixo preço a que se encontra o barril de petróleo) o medo percorre os corredores do poder angolano. O regime treme como nunca tal é o pânico de uma possível crise “a sério”. Sim, porque um país que tem previsto um crescimento de 3,5% para 2016 não pode nunca afirmar que está numa verdadeira crise (quem nos dera a nós, portugueses, ter um crescimento anual destes!).

Sempre que José Eduardo dos Santos procura soluções apenas as encontra num local: China. Nenhum outro país ou regime o apoiou tanto como o dos seus amigos asiáticos. Contudo esses dias podem estar a terminar (pelo menos é o que dizem os especialistas que acompanham de perto as relações entre as duas nações). Consta que a China pode virar o seu diapasão para outro local do mapa mundial, diminuído assim de forma drástica o apoio a Angola (tudo porque já não precisa do petróleo angolano, claro está). Dito isto impõe-se perguntar: se essas relações estagnarem o que será de Angola? Pois, ninguém sabe. Mas todos temem o pior.

E temem o pior por um outro motivo: a imprensa angolana afirma que José Eduardo dos Santos pode ter cancro. E se até há bem pouco tempo tudo não passava de um rumor tudo mudou quando, muito recentemente, Santos chocou a Assembleia Nacional ao deixar, pela primeira vez, de fazer o discurso anual sobre o estado da nação. O vice-presidente, Manuel Vicente, que discursou no seu lugar, disse apenas que o presidente de 73 anos estava “indisposto”, mas nem todos ficaram convencidos com a justificação.

Mas e se se verificar a doença o que acontece ao líder angolano? Demite-se? É destituído pelo próprio partido? Continua no poder para preparar a sucessão? E quem é que lhe pode suceder? A própria filha? O actual Vice-Presidente ou outra figura do partido? Pois, são demasiadas perguntas sem resposta. E é precisamente esta indefinição que está a aterrorizar os círculos do poder angolano.

Depois de 36 anos liderados por Santos nenhum especialista sabe como reagirá o povo angolano. Irá criticá-lo pelo mal que fez ou venerá-lo como se fosse um Deus? Irá apoiar um outro candidato do mesmo partido ou exigir mudanças em todo o sector político? Mas, mais importante que tudo o resto: irá contentar-se com o que lhe apresentarem ou irá lutar nas ruas por uma verdadeira liberdade de expressão?

Aconteça o que acontecer acho que é claro para todos que se aproximam tempos complicados para Angola e para os angolanos. A parte pior é que Portugal acabará sempre por ser apanhado no meio deste turbilhão. A nível económico é conhecida a “dependência”, directa e indirecta, que Portugal tem do capital angolano. Sim, porque muitas empresas nacionais investiram em Angola e expandiram-se para o mercado angolano e podem, agora, encontrar um grande obstáculo ao seu crescimento. A nível político a situação não é muito melhor. O recente caso de Luaty Beirão veio apenas provar o quão difícil de resolver podem ser casos polémicos envolvendo cidadãos portugueses. E para além de tudo isto não nos podemos esquecer das eventuais consequências que uma crise angolana pode trazer para os restantes países africanos e para as respectivas economias.

Ou seja, a parada está muito alta e está muito em jogo. Seja qual for o destino de Eduardo dos Santos e do seu regime estão à vista mudanças profundas na sociedade angolana e no respectivo esquema político. Resta-nos esperar que tudo corra pelo melhor. Para bem do povo angolano e do…povo português. Esta é uma excelente oportunidade para os governantes portugueses provarem a sua integridade e a sua capacidade de diálogo. Se há momento em que Portugal precisa de políticos a sério é este.

Angola está a caminhar para o abismo, mas será que ainda vai a tempo de reverter a marcha e impedir a queda fatal? Apenas o tempo o dirá caros leitores. Apenas o tempo o dirá.

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