Cultura

“Ricardo III” e Thomas Ostermeier nas “grandes surpresas” da temporada do Teatro D. Maria

A tragédia de Shakespeare “Ricardo III”, pelo encenador alemão Thomas Ostermeier, e uma estreia portuguesa sobre ‘fake news’ são alguns dos destaques da programação do Teatro Nacional Dona Maria II (TNDM), que aposta em fazer a “diferença”, na próxima temporada.

“Diferença como perspetiva de serviço público”, que existe não tanto para fazer a norma, mas a diferença, para que haja “criação artística, promoção da pesquisa, da inovação, dos novos talentos, da escrita em português de teatro, [para] que haja a relação fundamental do teatro com a infância e a juventude, com escolas e famílias”, disse à Lusa Tiago Rodrigues, diretor artístico do D. Maria.

Na nova temporada, o TNDM quer também fazer a diferença fora do Rossio, uma ambição que “este ano surge reforçada, com novos parceiros a entrar na rede Eunice, com três novos teatros municipais, que, nas próximas semanas, serão escolhidos”, que permitem levar o teatro “cada vez mais próximo de comunidades que estão longe de Lisboa”.

A diferença também se vai afirmar nas temáticas trabalhadas pelos espetáculos: “Defendemos absoluta liberdade de criação dos artistas, mas parte do serviço público é fazer a ponte entre liberdade de criação e temas que devem ser debatidos, fenómenos sociais que devem ser refletidos e pensados criticamente pela arte e, neste caso, pelo teatro”, acrescentou à Lusa.

Exemplo disto, é o espetáculo “Fake”, de Inês Barahona e Miguel Fragata (de “Montanha Rusaa” e “Do Bosque para o Mundo”, que costumam trabalhar espetáculos para público infantojuvenil) vão pela primeira vez fazer um espetáculo para o público em geral, que tem por tema as ‘fake news’, a desinformação, a comunicação social, as redes sociais, a forma como o fenómeno da desinformação se tem propagado e como “tem tido um efeito transformador e muito negativo, naquilo que é a forma como nos organizamos e pensamos enquanto sociedade, com o impacto político e social e de mentalidades que esse fenómeno tem”.

“É o tema que estes dois artistas quiseram trabalhar. Interessa-nos muito o trabalho artístico desta dupla de criadores, mas há também um trabalho de debate de reflexão sobre a sociedade” e, simultaneamente, a promoção da escrita de novos textos em português”, afirmou à Lusa Tiago Rodrigues, acrescentando que a peça tem estreia absoluta em março de 2020.

Outro caso que o diretor artístico do TNDM aponta é o espetáculo “Aurora Negra”, não só porque, mais uma vez, promove a escrita de teatro em português e os novos criadores, mas porque trata a questão da mulher negra em Portugal.

Trata-se de um trabalho criado e interpretado por três mulheres negras – Cleo Tavares, Isabel Zuaa e Nádia Iracema -, “três artistas absolutamente fantásticas no nosso meio”.

“Estamos a trabalhar uma temática importante na sociedade portuguesa: a representatividade das mulheres e dos homens negros, neste caso das mulheres, na sociedade, a falta de igualdade no acesso aos lugares de chefia, de liderança, de decisão, e aqui, curiosamente, no teatro há o reflexo, não há muitos espetáculos criados e dirigidos por mulheres ou homens negros no teatro português”, sublinhou.

Quanto à produção internacional, “faz efetivamente a diferença”, porque reforça a aposta em espetáculos de artistas de referência, sobretudo europeus, e que “ou tratam a questão do repertório, dos grandes textos clássicos com olhar contemporâneo, ou que tem relação com a escrita”.

O primeiro a ser apresentado, em outubro, intitula-se “Ibsen House”, dirigido pelo australiano Simon Stone, uma produção do Toneelgroep Amsterdam, uma das grandes trupes europeias, dirigida pelo holandês Ivo van Hove, “que roda por todo o planeta e que volta a Portugal”.

É uma dramaturgia de muitas peças de Ibsen misturadas como se fossem a história de uma só família.

A peça revisita, “com olhar de hoje, toda a dramaturgia de Ibsen”, reescrita por Simon Stone, “um artista absolutamente notável, que tem trabalhado nos grandes palcos de todo o mundo, tanto em teatro como em ópera, e que se estreia em Portugal”, disse à Lusa Tiago Rodrigues, destacando que este “foi um dos grandes sucessos” do Festival d’Avignon de 2017″.

Em novembro, chega “um espetáculo de uma beleza plástica incrível”, a última criação do artista francês Philippe Quesne, “Crash Park”, que conta um relato de sobrevivência de alguns passageiros, depois de um desastre de avião numa ilha.

Esta é uma peça que faz “referência ao património literário de Robinson Crusoé, da Ilha do Tesouro, do Deus das Moscas, de todas essas histórias de literatura de sobrevivência nas ilhas, fazendo um retrato crítico, mas muito poético do que é a nossa sociedade e como nos organizamos quase instintivamente”, considerou.

Uma das “grandes surpresas e destaques” desta temporada é o espetáculo “Ricardo III”, de Thomas Ostermeier, com a companhia Schaubhüne.

“É um espetáculo já mítico, criado há cerca de três anos, mas que é um espetáculo marcante da década. Será um dos espetáculos estudados durante muitos anos, naquilo que é o teatro europeu neste início do século XXI. Tem aquele que eu considero um dos maiores atores vivos de teatro do mundo – Lars Eidinger – que interpreta Ricardo III, e que será apresentado em datas muito particulares”: 31 de dezembro e 02 e 03 de janeiro, referiu Tiago Rodrigues.

“Não há memória, aqui na equipa do TNDM, de fazer um espetáculo de ano novo, mas achamos que este Ricardo III é tão absolutamente extraordinário, tão especial e ao mesmo tempo tão ambicioso de montar nesta casa, que achamos que precisava de marcar um momento de viragem e portanto a passagem de ano no Dona Maria será com esta tragédia shakespeariana dirigida por esse monumento do teatro que é o Thomas Ostermeier”.

Ainda no panorama internacional, o diretor artístico revelou que voltará a estar presente em Portugal “um dos grandes nomes do teatro europeu”, Frank Castorf, que dirigiu durante muitos anos a Volksbühne, em Berlim, e que é considerado um dos grandes encenadores da segunda metade do século XX e início do século XXI, do teatro europeu.

O encenador vai trazer o espetáculo “Bajazet”, “uma mistura que Frank Castorf faz da tragédia de Racine (‘Bajazet’) com o teatro e a peste de [Antonin] Artaud, portanto é um olhar que mistura uma tragédia neoclássica, como é a de Racine, em versos alexandrinos, com essa ideia do teatro da crueldade de Artaud”.

“Uma pesquisa muito teatral e ao mesmo tempo com um elenco absolutamente fenomenal, um elenco exclusivamente francês e francófono, liderado por Jeanne Balibar”, disse Tiago Rodrigues à Lusa, destacando que “vai ser uma oportunidade de o público ver um dos grandes nomes do teatro e do cinema francês em palco”.

Em outubro, o teatro vai apresentar Bruno Nogueira de regresso ao ‘stand up’, com o espetáculo “Depois do medo”.

A abertura da temporada 2019/2020 é feita com “três títulos muito fortes”: “Puré Present”, de Olivier Py, diretor do Festival d’Avignon, que é uma reescrita das tragédias de Ésquilo no meio prisional; “Antígona”, de Mónica Garnel, sobre a tragédia de Sófocles; e “Coleção de Artistas”, de Raquel André, uma coleção de fragmentos de outras peças.

No que respeita a projetos virados para a juventude, Tiago Rodrigues destaca o Festival Panos, em que três autores – Dulce Maria Cardoso, Gonçalo Waddington e Pascal Rambert – escrevem textos inéditos para serem interpretados por jovens.

Os espetáculos terão audiodescrição e interpretação em língua gestual portuguesa.

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