Ásia

Xanana Gusmão defende compra histórica de participação no Greater Sunrise

Xanana Gusmão defendeu hoje a opção de Timor-Leste comprar uma participação maioritária no consórcio do Greater Sunrise, afirmando que as dúvidas levantadas sobre o projeto devem ser “estudadas” e alvo de reflexão “profunda e honesta”.

“Quero lembrar que devemos pensar corretamente, medir bem o que se quer, o que se obteve e para quê”, afirmou, em declarações à Lusa, em Singapura, depois de assinar, em nome de Timor-Leste, a formalização da compra de uma participação maioritária no consórcio do Greater Sunrise.

“Só peço uma reflexão profunda, uma reflexão honesta. As dúvidas existem para ser aclaradas. Mas às vezes quando se aclara uma dúvida, a pessoa que tem essa dúvida não sente sequer que provocou uma dúvida incorreta”, disse o representante do Governo para os assuntos do mar.

O também ex-Presidente e ex-primeiro-ministro de Timor-Leste deixou em particular referências a críticas e dúvidas levantadas pela Fretilin, atualmente na oposição, afirmando que quando foi negociado o anterior acordo com a Austrália não havia tantas dúvidas.

“Ninguém colocou problemas quando foi do CMATS [acordo anterior], em que assinámos que durante 50 anos não falávamos das fronteiras. Agora que conseguimos o que é do nosso direito há tantas perguntas e tantas dúvidas”, disse.

Xanana Gusmão referiu que a situação o faz recordar a luta contra a ocupação indonésia.

“Muitos membros do Comité Central da Fretilin criaram o movimento Skylight para dizer que já tudo estava estragado, que íamos perder a guerra e renderam-se ao inimigo. Faz-me lembrar apenas isso”, afirmou.

O líder histórico timorense, representante do Governo para os assuntos do mar de Timor, disse que, por vezes, a democracia “não segue os princípios democráticos”.

“A democracia não é apenas para levar questões. Serve para levantar questões, mas para as estudar. As vezes a gente não estuda as questões”, disse.

“Nós usamos a democracia só para levantar problemas e não temos uma mínima ideia, uma opção, uma alternativa”, afirmou.

Xanana Gusmão falava à Lusa depois de assinar com o presidente da ConocoPhillips Austrália, Chris Wilson, e a vice-presidente da Shell Australia, Cecile Wake, o último documento que formalização a compra, por 650 milhões de dólares (575 milhões de euros), das participações das duas petrolíferas no Greater Sunrise.

Questionado sobre se Timor-Leste, com a concretização da compra, está 650 milhões mais pobre ou 650 milhões mais rico, Xanana Gusmão diz que não se deve olhar para o assunto apenas por esse prisma.

“Para conseguirmos a independência perdemos 200 mil pessoas. Se os 650 milhões servem para começar uma atividade que depois vai dar dinheiro ao próprio fundo de petróleo, para ajudar ao desenvolvimento, não meçamos as coisas nesse contexto”, afirmou.

No seu entender, também não se pode fazer medições apenas em questão do tempo que demorou para alcançar este acordo e concretizar este negócio.

“Não se pode medir em questão de tempo, mas dos resultados desse esforço ao longo do tempo. Se é tempo perdido, se depois de muito tempo não conseguimos nada – isto é tempo perdido. Portanto, o tempo só mede a nossa vontade, a nossa determinação e a firmeza de princípios. Só”, afirmou.

Sobre o financiamento do projeto, Xanana Gusmão disse que “está tudo em aberto”.

Numa recente entrevista à Lusa, o presidente e diretor executivo da Timor Gap, Francisco Monteiro, disse que Timor-Leste quer evitar recorrer ao Fundo Petrolífero (FP) para financiar os custos de capital (CAPEX) de até 12 mil milhões de dólares norte-americanos (cerca de 11 mil milhões de euros) para o desenvolvimento do projeto do gasoduto para Timor-Leste e processamento na costa sul.

Pouco tempo depois da cerimónia, num almoço com a equipa que ajudou a concretizar o negócio – incluindo responsáveis timorenses e advogados e especialistas de vários países, incluindo portugueses – Xanana Gusmão destacou a importância do dia.

Tratou-se, disse, de um longo processo negocial com momentos de grande “stress, pressão”, mas guiados pela vontade de “lutar pelo êxito da visão” sobre o futuro do projeto e de Timor-Leste.

Ele próprio, disse, só saltará em celebração quando “cheirar o primeiro gás em Beaço”, no sul do país – onde será desenvolvido o projeto de refinaria do gás canalizado do Greater Sunrise.

Xanana Gusmão deixou um aviso aos responsáveis da Timor Gap e do regulador ANMP, referindo que “têm de trabalhar” na “nova fase, ainda mais crítica”, que começa agora.

“Se não trabalharem, terão de se ver comigo. Chamo os nossos antepassados, o avô crocodilo e entrego-vos a ele para que se divirta com a vossa carne”, disse, ironizando.

 

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