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UNITA considera “incompleto” e “mal direcionado” combate à corrupção em Angola

O presidente da UNITA criticou hoje as medidas governamentais relacionadas com a justiça, defendendo que o combate à corrupção em Angola está “incompleto” e “mal direcionado”, não se esgotando na detenção de “alguns tubarões”.

Ao discursar no final da I Conferência Nacional sobre o Ano da Consagração da Memória de Jonas Malheiro Savimbi, que decorreu hoje em Talatona, na zona sul de Luanda, Isaías Samakuva, salientou que, além da corrupção financeira, falta ao Governo do Presidente angolano, João Lourenço, combater as irregularidades eleitorais, estruturais e institucionais.

“A luta que hoje se faz contra a corrupção está mal direcionada. A verdadeira luta contra a corrupção sistémica não pode ser dirigida para satisfação de objetivos políticos pessoais ou de grupos, mas sim contra o sistema corruptor, montado e dirigido pelo MPLA [Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA]”, afirmou o líder da União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA).

Na intervenção de 45 minutos, Samakuva exigiu a revisão da Constituição de 2010, que dá plenos poderes ao Presidente da República, alterações na lei e na composição da Comissão Nacional Eleitoral (CNE), para a transformar numa entidade “independente”, e a mudança de regime.

“O objetivo [da luta contra a corrupção] não deve ser o branqueamento da imagem de um partido, mas sim o resgate da pátria e a libertação do Estado das garras da oligarquia, o que implica a mudança de regime, do sistema no seu todo e a efetivação real da transição democrática acordada em Bicesse”, a 31 de maio de 1991, que selou o acordo de paz entre MPLA e UNITA e levou à realização de eleições gerais em 1992, disse Samakuva.

Nesse sentido, o líder do partido do “Galo Negro” insistiu na questão do combate à corrupção, salientando que há ainda “muito por fazer” numa luta que, no seu entender, é “seletiva, incompleta e mal direcionada”.

“Os angolanos não se devem entusiasmar com meia dúzia de prisões de alguns tubarões. Estas prisões não irão reduzir a pobreza, não irão aumentar a produção interna, nem garantir as transformações de fundo que o país precisa nos sistemas da educação, saúde e assistência social”, declarou.

“A luta é seletiva porque parece dirigir-se apenas contra certas pessoas do sistema e não contra o sistema em si, que está montado para a sobrevivência do ‘partido-estado’ com a corrupção. Todos sabem que ministros, governadores e outros dirigentes são utilizados para roubar o Estado e financiar o ‘partido-estado'”, acusou.

Para Samakuva, a liderança do MPLA, partido dirigido por João Lourenço, “reconheceu alguns dos atos de corrupção que cometeu” ao longo da História de Angola, com particular ênfase no próprio passado do partido.

“A fraude sobre a data da sua criação, a fraude sobre a identidade do seu fundador, a fraude sobre os seus presidentes, a fraude sobre o genocídio contra os seus dissidentes [27 de maio de 1977] e as fraudes eleitorais [em 1992, 2008, 2012 e 2017]. É chegado o momento de se fazerem as correções necessárias à Constituição e às leis para que Angola termine de vez com as fraudes institucionalizadas e continuadas”, disse.

Todos estes factos, à exceção do “Caso Nito Alves”, foram reconhecidos por João Lourenço no discurso proferido em setembro de 2018, momentos após ter sido empossado como Presidente do MPLA, ao lembrar que a “História” do partido sempre omitiu os nomes dos que, de facto, foram os primeiros líderes do partido: Ilídio Machado e Mário Pinto de Andrade.

Da mesma forma, hoje, Samakuva lamentou a “deturpação” e o “denegrir” da imagem com que a “história do MPLA” tratou o fundador da UNITA, Jonas Savimbi, que, nas palavras do atual líder do “Galo Negro”, foi “um nacionalista implacável” que sempre defendeu a unidade de Angola e “nunca traiu a pátria ou se deixou corromper”.

“O presidente fundador da UNITA [criada em 1966] nunca se vergou aos interesses hegemónicos de nenhuma potência estrangeira, nem de nenhum grupo nacional. Comandou exércitos, venceu batalhas, administrou territórios, conquistou poder e geriu milhões de dólares, mas nunca traiu a Pátria, nunca hipotecou o futuro do país, nunca utilizou os recursos públicos para enriquecimento pessoal ou dos seus filhos, nunca desviou dinheiro de Angola para o estrangeiro”, sublinhou Samakuva.

Sobre as exéquias fúnebres do líder fundador da UNITA, que foi morto em combate a 22 de fevereiro de 2002 (fez sexta-feira 17 anos) e cujo corpo foi exumado a 31 de janeiro último para vir a ser sepultado na aldeia natal de Munhusse (Lopitanga), no Andulo (Bié), Samakuva considerou um ato “justo” para que Jonas Savimbi possa “descansar eternamente no local da sua própria escolha”.

Os restos mortais de Jonas Savimbi estavam sepultados no cemitério municipal do Luena e foram exumados a 31 de janeiro para determinar se o ADN é o correto, trabalho que está a ser realizado por três equipas forenses diferentes – uma portuguesa, outra sul-africana e outra angolana -, prevendo-se que se possa proceder à cerimónia fúnebre entre abril (como defendido pelo Governo) ou junho (como prefere a UNITA).

O líder “histórico” da UNITA nasceu a 03 de agosto de 1934, no Munhango, a comuna fronteiriça entre as províncias do Bié e Moxico, e viria a ser morto em combate após uma perseguição das Forças Armadas Angolanas a 22 de fevereiro de 2002, próximo de Lucusse, no Moxico.

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