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Em Tonga, o reino dos gordos, o mercado de peixe vende restos de carne

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Localizada na região do Pacífico, a ilha de Tonga é o país mais obeso do mundo. Nos mercados de peixe, há restos de carne à venda. E até os pescadores vão lá comprar carne. Mais de 40 por cento da população tem diabetes e a esperança de vida cai, ano após ano, situando-se nos 64 anos.

Uma ilha, onde o peixe, os legumes e as frutas dominavam a dieta, transformou-se num caso de estudo. A má alimentação em Tonga está na base da epidemia da obesidade.

Nesta ilha do Pacífico, comem-se restos de carne de carneiro, que não são próprios para consumo. Mas não é tudo. Dos hábitos alimentares fazem parte os refrigerantes e a frase ‘gordura é formosura’ não é apenas uma expressão. É uma cultura.

O resultado é assustador. Em Tonga, 40 por cento da população sofre de diabetes. Ano após ano, cai a esperança, que atualmente não supera os 64 anos.

Tonga – que tem apenas 100 mil habitantes – é o país mais obeso do mundo. O excesso de peso e as doenças associadas à má alimentação são mais do que um problema de saúde pública: são um drama.

A razão desta realidade está relacionada com a cultura, sobretudo no que diz respeito aos hábitos alimentares.

Os tongoleses comem restos de carne de carneiro, totalmente contra-indicados para uma dieta. A carne é importada da Nova Zelândia, que não usa o produto. A parte consumida, retirada na barriga do animal, está carregada de gordura.

O curioso é que a dieta tradicional em Tonga era composta sobretudo de peixe, legumes e frutos, ou não se tratasse de uma ilha.

No entanto, em meados do século passado, as sobras de carne começaram a chegar às ilhas do Pacífico. Essas baratas e tornaram-se populares.

Os restos de carneiro são retirados do animal porque são considerados impróprios para consumo, na Nova Zelândia. No entanto, apesar de destruídos, esses restos foram vendidos para alguns países do Pacífico, cuja população se tornou dependente.

Os locais consideravam que, por ser importada, era de melhor qualidade. E o peixe saudável que as águas do Pacífico ofereciam nem sequer eram vendidas, no mercado.
“As pessoas acham que tudo que é importado é melhor”, explica Foliaki, enfermeira, ativista e parlamentar reformada.

Conta que há casos em que os próprios pescadores vão ao mercado comprar restos de carne importados, apesar de terem acabado de pescar enormes quantidades de peixe saudável.

“Foi criada uma geração em Tonga que só come restos de carne de carneiro”, lamenta Sunia Soakai, do departamento de saúde da Secretaria da Comunidade do Pacífico.

E vamos aos números. Em 1973, apenas sete por cento da população de Tonga padecia de doenças não transmissíveis, ou diabetes.

Em 2004, essa percentagem subiu para 18 por cento. E 10 anos mais tarde, quase duplicou, atingindo os 34 por cento, de acordo com dados oficiais, fornecidos pelo Ministério da Saúde de Tonga. Os especialistas atualizam esse número: quatro em cada dez tongoleses sofrem de diabetes.

Outro número curioso. O rei Tupou IV, que morreu em 2006, pesava 200 quilos. Conquistou o título de rei mais pesado de sempre, reconhecido pelo Guiness.

Estima-se que cada refeição possa chegar a um quilograma de restos de carneiro, em média. O número parece exagerado, mas há relatos de consumidores ainda mais vorazes.
Cada lata de carne à venda pesa mais de 2,7 quilogramas.

A questão cultural também pesa. É aceite no Tonga que ser magro é sinal de fraqueza e de inferioridade, na hierarquia social. Assim, a população obesa não se sente mal nesse corpo pouco saudável. Pelo contrário. Alimenta-o, indiferente a doenças.

“Ser gordo, aqui, é sinónimo de beleza”, realça Tirou Havea, presidente do Fórum da Sociedade Civil de Tonga.

Comer bem é comer muito. E tudo o que é apresentado como produto importado ganha o rótulo de comida de elevada qualidade. Mesmo os… refrigerantes e o ‘fast-food’.

Segundo Lepaola Vaea, secretária-adjunta da Receita Federal de Tonga, “há um princípio de copiar tudo o que chega de fora”.

“Víamos a publicidade de todo mundo, que nos mostrava americanos a beber refrigerantes. Pensávamos: ‘Seria bom beber refrigerantes, mas somos pobres e só temos água’. Agora, os americanos bebem água e nós temos os refrigerantes…”, revela.

Apesar da noção dessa realidade, é difícil mudar hábitos. A saúde e os costumes estão em disputa, sendo que os segundos derrotam a primeira.

E por isso cada vez se vive menos. A esperança de vida estava perto dos 80 anos. Agora, fica-se pelos 64, com tendência para decrescer.

O problema da diabetes – mais do que um problema, uma epidemia – deverá levar gerações até ser combatido com eficácia.

Entretanto, nos mercados de peixe, há restos de carne à venda…

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