Cultura

Susana desfila na mordomia de Viana há 40 anos e “enquanto as pernas puderem”

Susana Lima completou hoje 40 anos consecutivos de participação no desfile da mordomia, no primeiro dia da Romaria d’Agonia, em Viana do Castelo, e no qual quer continuar a entrar “enquanto as pernas puderem”.

“Desfilarei enquanto as pernas puderem”, afirmou à agência Lusa a advogada de 43 anos, evocando o poema celebrizado no fado “Até que a voz me doa”.

Susana Lima começou cedo. Tinha “apenas” três anos quando integrou o número emblemático da romaria.

“Se a Senhora d’Agonia quiser, eu cá estarei durante muitos anos mais”, adiantou.

Emocionada, admitiu ter completado uma “meta” que não esperava, os “40 anos consecutivos de mordomia”.

“Nunca falhei a mordomia, graças a Deus. Acho que a Senhora d’Agonia faz gosto que eu cá esteja e eu faço muito gosto em vir”, referiu.

Em 1979, quando com três anos participou pela primeira vez, o desfile da mordomia “abria com crianças”, o que já não acontece atualmente.

Lembra-se que, naquela altura, a mãe “era a única mordoma com o fato azul”.

“Deixou de o usar em 2000 e desde então que o envergo, tal como o ouro que trago ao peito”, explicou.

Nessa altura, lembrou, “era muito diferente”.

“Participavam no desfile cerca de 40 a 50 mulheres”, disse.

Hoje, desfilaram 619 mordomas de sete nacionalidades. A dimensão que o número atingiu não lhe deixa dúvidas que o “testemunho continua a passar de geração”.

“A mordomia é feita de todas. Se cada uma de nós trouxer outra mulher, a mordomia não morre”, reforçou.

O desfile partiu dos jardins do antigo Governo Civil, cerca das 16:00, e terminou, mais de duas horas depois, na cúria diocesana.

Este ano, pela primeira, vez, a sessão de cumprimentos oficiais da Mordomia ao presidente da Câmara de Viana do Castelo decorreu de manhã, para imprimir maior fluidez e dinamismo ao desfile.

José Maria Costa abriu o salão nobre do edifício camarário para receber uma delegação de 45 mordomas.

“Se quiséssemos ilustrar as Festas de Nossa Senhora d’Agonia do ponto de vista literário, diria que são um poema à vida escrito com letras de sal, terra, linho e ouro”, afirmou.

O autarca socialista explicou que o sal representa “o mar, a essência das festas, o percorrer das ruas da ribeira e a procissão ao mar”. Já a terra simboliza o apoio de toda a comunidade à festa dos pescadores”. O linho, dos trajes, e o ouro são, segundo o autarca, o “melhor” que as raparigas envergam e exibem nos dias de festa”.

O desfile da mordomia, hoje presenciado por milhares de pessoas que se distribuíram pelas ruas principais da capital do Alto Minho, é o momento em que os diferentes trajes das freguesias de Viana se encontram e mostram, de uma só vez à cidade.

Desde 2014, também as mulheres da ribeira de Viana do Castelo, com os seus trajes de varina, participam neste desfile colorido pelos vermelhos, verdes e amarelos dos típicos e garridos trajes das diferentes freguesias.

Não faltam também os fatos de noiva mais sóbrios, de cor preta. Neste número algumas das mulheres chegam a carregar dezenas de quilos de ouro, reunindo as peças de famílias e amigos num único peito, simbolizando a “chieira” e outrora o poder financeiro das famílias.

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