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‘Sr. Dinis’ sonha voltar para Portugal mas com o coração dividido após 57 anos de Guiné-Bissau

João Dinis chegou à Guiné-Bissau em 1963 para combater na guerra colonial e nunca mais voltou. Hoje diz que quer regressar a Portugal, mas com o coração dividido porque “57 anos de Guiné não se esquecem com facilidade”.

Este português, prestes a fazer 78 anos, recebe a Lusa no seu restaurante, numa das principais avenidas de Bafatá, na zona leste da Guiné-Bissau, a cerca de 140 quilómetros da capital, e para onde mudou o negócio há dez anos.

O ‘Sr. Dinis’, como é conhecido, não apenas em Bafatá, mas também em Bissau, justifica a mudança com a necessidade de dinamizar o negócio porque a zona onde tinha o restaurante “começou a ficar degradada”, “sem movimento” e “ninguém lá ia”.

Com uma vida dedicada aos negócios, João Dinis explica que começou por comprar uma escola de condução em Bafatá, no início de 1968.

Antes, trabalhou em Bissau, primeiro como funcionário da Administração do Porto e depois como instrutor de condução.

“Cheguei a ter os dois empregos, trabalhava na Administração do Porto de noite e na escola de condução de dia”, conta.

Sobre os tempos da guerra colonial, o português explica que pertencia ao Batalhão 313, companhia 49, instalada em Cacine, na região de Tombali, no sul. Mais tarde juntou-se ao “pelotão de cavalaria, que tinha a missão de abrir as estradas”, num percurso que implicava abrir caminho por vários locais e que “levou 13 meses a percorrer”.

Questionado por que decidiu ficar na Guiné-Bissau depois da independência, o português oriundo de Alvorninha, Caldas da Rainha, diz que foi desafiado por um amigo, “o Augusto”, quando faltava um dia para acabarem a comissão de serviço e voltarem para Portugal.

“Ainda lhe disse ‘estás maluco? agora que falta um dia’, mas depois palavra foi palavra, conversa foi conversa e decidimos ficar na Guiné, mas com o objetivo de ir para França, que seria mais fácil”, conta, lembrando, no entanto, que “esse plano nunca foi concluído”.

Na altura, João Dinis era solteiro. Só casou em 1971, quando foi de férias a Portugal. A sua companheira desde então, Célia, de 65 anos, é a responsável pela cozinha do restaurante Ponto de Encontro, assim chamado por inspiração no nome de um programa da SIC.

O português explica que estava em Lisboa quando viu nesse programa “uma menina da Guiné à procura do pai, que queria conhecer” e “que conseguiu encontrar ao fim de tantos anos”. Comovido com a “história bonita” da jovem guineense, decidiu dar ao restaurante o nome do programa.

João Dinis e a mulher tiveram um outro restaurante em Gabu, a 190 quilómetros de Bissau, onde viveram entre 1972 e 1976.

Agora em Bafatá, são “os petiscos”, que incluem pratos guineenses como a galinha cafriela, que atraem os clientes, sobretudo estrangeiros “que trabalham em projetos ou em ONG [organizações não-governamentais]”, a maioria portugueses e franceses.

“Cá não é fácil aparecer uma pessoa da Guiné que venha almoçar ou jantar com a família”, lamenta.

Os clientes que tem “vão dando para as despesas”, mas, queixa-se, só de eletricidade paga 130.000 francos CFA (quase 200 euros) por mês. “É muito caro, mas é preciso manter o negócio”, diz.

Sobre quantos portugueses vivem em Bafatá, diz que “não são mais dos que quatro ou cinco” mesmo a morar ali. Os outros, vão “trabalhar nos projetos e depois vão”.

Segundo dados do gabinete da secretária de Estado das Comunidades, vivem na Guiné-Bissau cerca de 2.500 portugueses, embora alguns dividam a sua vida entre o país e Portugal e outros países europeus.

Residem maioritariamente na região Bissau-Biombo (73 por cento), mas também na região Norte (Cacheu e Oio) e Leste (Bafatá e Gabu), trabalhando sobretudo nas áreas do comércio e retalho, construção civil, logística e distribuição e cooperação e desenvolvimento.

Quem entra no restaurante do ‘Sr. Dinis’ facilmente percebe a ligação a Portugal, porque basta chegar ao balcão para ver a bandeira, pendurada no centro da parede.

Dos tempos passados na Guiné-Bissau, o que recorda com mais tristeza é a morte do filho, aos 25 anos, por falta de assistência médica adequada. Foi há seis anos e a morte aconteceu na viagem de avião quando o filho estava a ser transferido para receber tratamento em Portugal.

Depois deste episódio, lembra, as outras duas filhas, mais velhas e a residirem em Portugal, garantiram-lhe que nunca mais voltam “a meter os pés na Guiné-Bissau”.

João Dinis percebe, mas mostra-se triste por não ter ninguém que dê continuidade aos negócios que tem há décadas na Guiné-Bissau.

Sobre o seu regresso ao país onde nasceu, hesita, ri-se, mas responde: “É o meu sonho”.

“É certo que ainda estou um bocadinho preso à Guiné, atendendo ao negócio que tenho cá”, diz, para logo depois dar conta do sentimento de coração dividido entre os dois países: “São 57 anos de Guiné, que não se esquecem com facilidade”.

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