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‘Servir’ Hitchcock a doentes em estado vegetativo desperta atividade cerebral

hitchcock Ao ver um filme de Hitchcock, um homem que estava em estado vegetativo há 16 anos apresentou actividade cerebral. Os cientistas comprovaram que o paciente, inconsciente do mundo desde um acidente em 1997, reagiu ao estímulo externo.

O caso é real e digno para servir de argumento a um filme de Alfred Hitchcock, o mestre do mistério: um homem que está em estado vegetativo há 16 anos viu um filme de Hitchcock e apresentou reações cerebrais.

O doente em causa encontra-se em estado vegetativo desde 1997, quando, na sequência de uma discussão, foi agredido com um pontapé no peito. A agressão cortou o fornecimento de sangue ao cérebro, deixando o homem em coma durante três semanas.

Findo esse período, os médicos declararam que o paciente estava em estado vegetativo: apesar de ter os olhos abertos e de realizar funções biológicas (como urinar e defecar), o cérebro não responde a estímulos externos.

A não ser, como ficou demonstrado num estudo realizado pela equipa da neurocientista Lorina Naci, da Universidade de Ontario (EUA), que esse estímulo seja um filme do mestre do mistério: Alfred Hitchcock. O resumo das conclusões foi agora publicado na revista Proceedings of the National Academy os Sciences.

Para este ensaio, o paciente em estado vegetativo foi ‘convidado’ a ver ‘Bang, Bang, you’re dead’ (de 1961), um episódio da série ‘TV Hitchcock Presents’ em que um menino de 5 anos encontra um revólver num armário da casa e pensa estar na posse de um brinquedo.

“Há momentos muito tensos”, justificou Lorina Naci, lembrando a situação em que o menino aponta a arma, carregada, para a própria mãe e para a irmã.

Para poderem traçar comparações, os neurocientistas começaram por exibir o episódio a 12 pessoas saudáveis, cuja atividade cerebral foi medida por ressonância magnética. As conclusões mostraram que, nos momentos de maior tensão ou mistério, as regiões parietais frontais do cérebro (especializadas na atenção) mostraram maior atividade.

Este controlo foi complementado com os testes a mais duas pessoas cujo estado de consciência não era completo: um homem que sofrera uma paragem cardíaca ao ser alvejado (há 16 anos) e uma mulher com um dano cerebral de origem desconhecida (há 10 anos).

Os dois pacientes demonstraram também um aumento da atividade das regiões parietais frontais durante os momentos de maior suspense, confirmando as premissas dos investigadores: mesmo que não tenham entendido a tensão do momento, os pacientes reagiram ao estímulo externo.

Essa conclusão foi reforçada com os resultados do ensaio com o homem em estado vegetativo desde 1997. O paciente reagiu ao estímulo, mesmo que não o tenha compreendido.

“Mostrámos, pela primeira vez, que um paciente com níveis de consciência desconhecidos era capaz de monitorizar e analisar informação vinda do ambiente ao redor”, resumiu Naci, numa entrevista ao site The Verge.

O ensaio prosseguiu com outros testes, como um envolvendo pacientes saudáveis que, através da visualização de excertos selecionados do filme de Hitchcock, comprovaram que o aumento da atividade nas regiões parietais frontais não foi uma reação automática, mas sim definida pelo próprio cérebro.

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