Cultura

“Nada acontece por acaso” no teatro sobre uma Lisboa que ameaça ser “parque temático”

Uma história de amor em Lisboa, cidade que ameaça tornar-se “num parque temático fácil de consumir”, é o universo de “Nada acontece como planeamos”, a estrear na sexta-feira, no Teatro Nacional D. Maria II, na capital.

A afirmação é de Tiago Rodrigues, autor do texto, encenação, cenografia e figurinos da peça que construiu para 16 finalistas da escola suíça La Manufacture – Haute École des Arts de la Scène (Escola Superior de Artes de Palco de Lausana), que estão há dois meses em Lisboa, a construir este trabalho, com o diretor do Teatro D. Maria II.

É um trabalho de “chegada” e “despedida” em Lisboa, já que se trata de um trabalho para finalistas, e que, como tal, não podia deixar de falar “nas histórias das pessoas desalojadas do centro histórico”, como referiu o encenador à imprensa.

Falar de despedidas em Lisboa e da cidade, hoje, “obrigava-nos a falar do que eles descobriram na cidade”. “Uma cidade em constante mutação, que não é uma novidade (…), ‘mudam-se os tempos, mudam-se as vontades’ (…), mas também como é que este ‘mudam-se os tempos/ mudam-se as vontades’ é visto hoje”, acrescentou o encenador.

Falar da Lisboa de hoje é também falar da “velocidade vertiginosa com que Lisboa ameaça tornar-se num parque temático fácil de consumir, e do preço social e humano disso – as histórias das pessoas desalojadas do centro histórico e, portanto, desalojadas também da sua história, da sua identidade”, enfatizou Tiago Rodrigues.

Para cerzir estas histórias numa narrativa de amor entre duas pessoas que se encontram pela primeira vez, no jardim do Príncipe Real, e que não voltam a cruzar-se, porque, apesar de uma promessa de um segundo encontro, não chegam a trocar contactos – e uma delas não conseguiu chegar ao jardim, devido à “perpétua mudança da cidade” -, Tiago Rodrigues elaborou um texto assente em cartas de despedida, tantas quantas o número de finalistas que interpretam o espetáculo.

O facto de estes 16 jovens terem chegado a Lisboa para fazerem um espetáculo de despedida da escola e de entrada na vida profissional, pareceu “rimar” a Tiago Rodrigues, afirmou o encenador.

Tiago Rodrigues levou estes jovens a visitas guiadas por Lisboa – uma com o jornalista Adelino Gomes, que os “guiou mentalmente pela reportagem que fez em direto no 25 de Abril de 1974, outra, com a escritora Joana Bértolo, a uma piscina vazia, e outra ao Museu do Aljube.

Estas visitas permitiram que emergisse neles algumas ideias, algumas histórias e foi assim que surgiram as cartas de despedida, explicou o diretor do D. Maria.

“Quis dar-lhes uma imagem de outra Lisboa”. “Se não rasparmos um pouco as superfícies destas fachadas não descobrimos essa outra camada de história que existe na cidade “, frisou.

Assim, escreveu uma carta para Ada, um dos artistas, para que cada um tenha “o seu momento, a sua história”, num espetáculo de despedida de curso.

Um espetáculo “feito à medida”, refere Tiago Rodrigues, comparando-o com as luvas de uma casa da especialidade em Lisboa, e que é várias vezes citada no espetáculo.

No final de “Nada acontece como planeamos” não falta a poesia: o soneto de Camões “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, cantado por José Mário Branco, nem uma despedida coletiva, numa 17.ª carta de despedida.

Trabalhar com estes 16 alunos que estiveram dois meses em Lisboa, a expensas do estabelecimento de ensino que frequentam, foi uma experiência “muito enriquecedora” para Tiago Rodrigues, que gostava muito de trabalhar com esta escola suíça, não apenas a título particular, como a nível do D. Maria II, disse.

Tiago Rodrigues afirma tratar-se de uma escola “muito particular”, que promove a autonomia artística dos seus alunos e um percurso de descoberta junto de outros artistas profissionais. Características que também lhe permitiram partilhar experiências, questionar-se e repensar o seu trabalho, disse.

Lyon, Paris e Montpellier, em França, Genebra, Lausana e La-Chaux-de-Fonds, na Suíça, são alguns dos locais onde a peça será representada até à primeira semana de julho, depois das três representações que tem na Sala Garrett, do D. Maria II, a partir de sexta-feira.

Os teatros com que, habitualmente, Tiago Rodrigues trabalha em França e na Suíça e o prestígio da escola suíça permitiu, segundo o ator e encenador, uma digressão internacional “longa e intensa” desta peça, referiu.

Com tradução de Thomas Resendes, assistência de encenação de Teresa Coutinho, desenho de luz de Cárin Geada, desenho de som de Ponto Zurca e legendagem de Rita Mendes, a peça, falada em francês, estreia-se na sexta-feira à noite e tem novas representações no sábado, às 21:00, e, no domingo, às 16:00.

A interpretar “Nada acontece como planeamos” estão Angèle Colas, Camille Le Jeune, Catherine Demiguel, Donatienne Amann, Guillaqume Miramond, Greg Ceppi, Isabela De Morais Evangelista, Isumi Grichting, Julie Bugnard, Laura Den Hondt, Lucas Savioz, Morgane Grandjean, Pépin Mayette, Raphaël Archinard, Samuel Perthuis e Victor Poltier.

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