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Morreu o realizador Jean-Pierre Mocky, o franco-atirador do cinema francês

O ator e realizador francês Jean-Pierre Mocky, que soma mais de sete décadas de atividade e cerca de seis dezenas de produções por si dirigidas, morreu hoje, em Paris, aos 86 anos, anunciou a sua família.

Conhecido por dirigir filmes como “Solo”, onde estabelecia a sua própria revolução, na pele do assaltante Vicent Cabral, e “Morte ao Árbitro!”, protagonizado por Michel Serrault, Jean-Pierre Mocky era “o franco-atirador” do cinema francês, pelo caráter independente do seu percurso, como estabeleceu a Cinemateca Francesa, quando lhe dedicou uma retrospetiva, em 2014, e como hoje o recorda a agência France-Presse.

Numa carreira como ator iniciada na adolescência, Mocky era também o “sem amor” de “Os Vencidos”, de Michelangelo Antonioni, o soldado anónimo de “Senso”, de Visconti, o doente que grita, em “Nome: Carmen”, de Jean-Luc Godard, o filho de Edmond Dantès, no “Conde de Monte Cristo”, de Robert Vernay, e o velho Alex, no seu derradeiro filme, “Tous les flics” (“Todos os Polícias”), que tinha em pós-produção, com estreia prevista para 2020.

Nascido em Nice, no sul de França, em 06 de julho de 1933, numa família de origem judia, com o nome de Jean-Pierre Mokiejewski, estreou-se na realização em 1959, em “Les dragueurs”, com Charles Aznavour, depois de ter atuado pela primeira vez em “Vive la liberté!”, de Jeff Musso, em 1946.

“Un drôle de paroissien”, “La grande lessive” e “Guerra à TV”, à semelhança de outros filmes que dirigiu durante os anos de 1960, colocaram-no perto da ‘nouvelle vague’ da época, mas sempre à margem de correntes dominantes e leal ao seu próprio caminho.

Mocky foi “O Machão”, com Bouvril, filme que chegou a Portugal em 1974, mas também aquele que soube contar “Os Escândalos da Cidade”, a partir de Horace McCoy, com os atores Jean Carmet e Michel Lonsdale, cruzar o submundo com a política, em “L’Albatros”, revisitar o Maio de 68, uma década mais tarde, em “Le Piège à Cons”, e revelar “A Testemunha”, num enredo protagonizado por Alberto Sordi, que o cineasta chegou a considerar o seu melhor filme.

“Milagre”, uma desconstrução das peregrinações a Lourdes, em França, levou-o aos do festival de Berlim, em 1987. Mas foi com “Litan”, de 1982, que o festival de Sitges, em Espanha, o distinguiu, assim como o festival Avoriaz, de cinema fantástico, em França.

Para garantir a exibição dos seus próprios filmes, à margem das grandes distribuidoras, comprou em 1994 a sua própria sala de cinema, Le Brady, em Paris, que vendeu no auge da crise, em 2011.

Trabalhou para televisão, onde desde 2007 mantinha o projeto “Myster Mocky présente”, série de curtas-metragens com paralelo na histórica “Afred Hitchcock apresenta”, da década de 1950, nos Estados Unidos.

Em vésperas das eleições presidenciais francesas, em 2017, dirigiu “Voutez pour moi”, sátira sobre três candidatos a uma pequena câmara municipal, afundados em corrupção e determinados em conquistar o poder.

Em 2013, Jean-Pierre Mocky recebeu o prémio Saint Germain de carreira, criado pelo filósofo francês Bernard-Henry Levy, e decidido anualmente por um júri de escritores, destinado a celebrar um filme ou um percurso independente no cinema.

No passado mês de abril, numa entrevista a Gilles Botineau, do blogue Chaos Reign, dedicado à 7.ª arte, Mocky prometia regressar às filmagens, durante este verão, para fazer “Un drôle de President”, com produção de Jean-Claude Fleury, e interpretações de Gerard Depardieu e Isabelle Huppert.

A ideia, disse, era continuar a filmar, a imaginar filmes, não parar nunca. “Não há aposentações no nosso setor”, afirmou.

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