Europa

Informações falsas têm “amplificado” movimento dos “coletes amarelos” em França

Vídeos, imagens e notícias falsas têm-se disseminado mais entre “coletes amarelos” do que a informação produzida por meios franceses legítimos e isso permite ao movimento crescer em França, consideram os correspondentes de The Economist e Financial Times em Paris.

Sophia Pedder, correspondente de economia e política para a revista The Economist em Paris, e Simon Kuper, jornalista do jornal Financial Times, radicado há vários anos na capital francesa, estiveram esta segunda-feira a debater o tema “Informações e fim da verdade: o que fazer face à crise de qualidade dos meios de comunicação de qualidade” a convite da delegação da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris.

“Não digo que isto [informações falsas] sejam a única razão pela qual os ‘coletes amarelos’ protestam. Eles têm razões muito válidas para se manifestar e as questões que levantam são verdadeiramente pertinentes, mas as informações falsas são um fator amplificador e que justifica este fenómeno”, explicou Sophia Pedder, referindo que ao percorrer França e falando com vários membros do movimento, encontrou menções às mesmas histórias falsas que são divulgadas nas redes sociais.

Desde “exploração francesa de países africanos através da utilização do franco” até “fotografias de um manifestante ensanguentado que são, afinal, de um protesto em Madrid”, a jornalista – que também estudou a fundo os grupos deste movimento na rede social Facebook – explicou que não sendo a primeira vez que o jornalismo lida com “propaganda” errónea, o que é inovador é a velocidade com que estas informações de propagam e quantidade de pessoas a que chegam.

A jornalista também indicou que vídeos disseminados pela Russia Today (RT) e Sputnik, meios russos presentes em França, tiveram mais visualizações do que vídeos produzidos pelos meos de comunicação franceses como o Le Monde ou o Le Figaro.

Para Simon Kuper, as pessoas nunca estiveram verdadeiramente interessadas na verdade, mas sim no entretenimento.

“As pessoas nunca quiseram saber a verdade. Porque havíamos de dar prioridade à verdade? A maior parte das pessoas quer ser entretida e tomar um partido. […] O que mudou é que há muito mais informações falsas hoje em dia. Muitos americanos acreditam que o 11 de Setembro foi organizado pelo Governo, mas em 2001 não tinham como propagar essas histórias”, justificou o jornalista.

Outro problema que tem contribuído para a propagação destas notícias falsas, segundo Sophia Pedder, é o declínio do jornalismo local.

“As grandes histórias do jornalismo eram contar o que realmente se passava e isso era muito bem feito pelo jornalismo local. Mas esse jornalismo tem vindo a desaparecer no Reino Unido, nos Estados Unidos e agora o jornalismo é muito mais centrado nas capitais”, indicou a jornalista da The Economist.

Apesar de concordar que o jornalismo se faz nas capitais e que muitos jornalistas “querem ser estrelas e dar-se só com políticos e pessoas famosas” contando apenas histórias dos corredores do poder, Simon Kuper considera que o jornalismo continua a ser mais credível do que a informação partilhada nas redes sociais.

“O jornalismo comete erros, mas temos procedimentos para verificar os nossos factos e, se mentirmos, vamos ser despedidos. Os jornalistas são castigados pelos seus erros e isso não acontece a quem escreve mentiras no Facebook. As pessoas não se apercebem de todas as verificações que existem no jornalismo”, indicou o jornalista, reforçando que mesmo os casos em que se descobre que um jornalista publicou uma história falsa só mostram que estes controlos estão a funcionar.

“O Presidente Trump diz mentiras todos os dias e ainda lá está”, exemplifica.

Quanto a possíveis soluções, Sophia Pedder diz que não há uma lista a seguir.

“Não temos as respostas numa lista, vamos tentando remediar as situações. A literacia dos ‘media’ é interessante e é algo que os franceses estão a fazer, mas é algo geracional, portanto vai levar algum tempo. A verificação de factos, feita por muitos jornais franceses, também ajuda”, apontou a correspondente, hesitando quanto à eficácia da legislação e aos problemas que traz à liberdade de expressão.

A conferência foi organizada e moderada por Ricardo Soares de Oliveira, professor na Universidade de Oxford.

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