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Espanha admite que pressão nos cuidados intensivos obriga a seleção de doentes

O Ministério da Saúde de Espanha, país que hoje ultrapassou os mil mortos por Covid-19, admitiu que há “sobrecarga e pressão” nas unidades de cuidados intensivos de alguns hospitais que obrigam a mais restrições na admissão de doentes.

A gestão de pacientes nas unidades de cuidados intensivos (UCI) tem habitualmente critérios restritivos que são “muitíssimo mais flexíveis que agora”, disse à imprensa em Madrid o diretor do Centro de Alertas e Emergências de Saúde do Ministério da Saúde espanhol, Fernando Simón.

O responsável, que respondia a uma pergunta sobre se estão a ser feitas triagens na admissão de doentes nas UCI, acrescentou que em alguns hospitais, devido à “sobrecarga e pressão”, os critérios têm de ser mais restritivos.

Fernando Simón falava na conferência de imprensa diária de atualização dos dados oficiais sobre a prevalência do novo coronavírus em Espanha, depois de anunciar 19.980 casos confirmados e 1.002 mortes, com 1.141 pacientes internados em unidades de cuidados intensivos.

O Ministério da Saúde espanhol está a trabalhar em coordenação com as sociedades científicas para estabelecer algoritmos e critério de acesso às UCI “o mais homogéneos possíveis”, disse Simón.

Mas, insistiu, a situação limite em alguns hospitais “não é generalizada” e o Ministério está a desenvolver todos os esforços para diminuir a sobrecarga em unidades concretas.

Questionado sobre como se explica a grande diferença na taxa de mortalidade na Alemanha – que tem 15.000 casos positivos e 44 mortes – e em Espanha – cerca de 20.000 casos e mais de 1.000 mortes -, o responsável disse que não é explicável.

“Não sabemos se é uma questão de dispositivos de notificação, de diferentes definições de caso ou se é uma realidade”, disse.

“Certo é que é uma situação difícil de explicar, não só por nós, como por qualquer outro país europeu e mundial”, acrescentou.

A imprensa espanhola noticiou hoje que as recomendações das associações médicas são no sentido de, em situações como a atual, deve ser dada prioridade às pessoas com maiores possibilidades de sobrevivência nas admissões nas UCI.

As recomendações constam de um documento elaborado pelo Grupo de Trabalho de Bioética da Sociedade Espanhola de Medicina Intensiva, Crítica e Unidades Coronárias, em colaboração com a Sociedade Espanhola de Medicina Interna, ou seja, as organizações que representam os médicos intensivistas e internistas, na primeira linha do combate à Covid-19.

“Admitir um internamento pode implicar negar outro a outra pessoa que pode beneficiar mais dele, pelo que é de evitar o critério de admitir primeiro quem chega primeiro”, diz o documento, citado nomeadamente pelo jornal El Mundo.

Aquele princípio implica “não admitir pessoas para as quais se prevê um benefício mínimo (como situações de falência multiorgânica, escala de gravidade elevada ou condições de fragilidade avançada)” e “avaliar cuidadosamente o benefício de admissão de pacientes com expetativa de vida inferior a dois anos” e a potencial qualidade de vida futura.

O documento frisa no entanto que a idade do doente “em nenhum caso deve ser o único elemento a considerar”, devendo antes avaliar-se “os pacientes de forma global e não a doença de forma isolada”.

Espanha é o segundo país mais atingido pelo Covid-19 na Europa, depois de Itália.

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