América do Sul

Eleições históricas no Brasil mostraram uma sociedade fraturada

Em ano de eleições, 2018 ficou marcado pelo atípico e conturbado cenário político que levou a uma profunda divisão da sociedade brasileira durante toda campanha eleitoral, e que culminou com a ascensão da extrema-direita no Brasil.

A intervenção federal no Rio de Janeiro, a prisão de Lula da Silva, campanhas eleitorais dominadas por notícias falsas e a eleição de um Presidente ligado à extrema-direita levou a que 2018 fosse considerado por especialistas como um ano atípico para o país sul-americano.

Janeiro de 2018 começou com o anúncio de uma intervenção federal no Estado brasileiro do Rio de Janeiro com objetivo de amenizar a situação da segurança interna e os níveis de violência que assolavam a região. Porém, para o cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB) Nauê Azevedo, essa intervenção “pouco usual” acabou por ter reflexos na política do país.

“Não é algo muito usual e acabou por decretar a morte política, por assim dizer, do Governo de (Michel) Temer dentro do Congresso porque os principais temas, entre eles a proposta da reforma da previdência, não puderam mais ser votados. Nunca vamos ter a certeza absoluta se essa intervenção foi uma jogada para retirar a previdência do ar ou se realmente foi uma questão 100 por cento focada no problema imenso de segurança pública do Rio”, afirmou o professor em entrevista à agência Lusa.

No entanto, o número de mortes decorrentes de intervenção federal, nos primeiros sete meses de 2018, foi de 895, um aumento de 279 por cento em relação ao ano de 2013, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP).

Pouco tempo depois, o cenário político do Brasil atravessava um novo período marcante que foi a condenação do ex-Presidente Lula da Silva a 12 anos e 1 mês de prisão por corrupção e branqueamento de capitais.

“Não se pode dizer que (a prisão de Lula) não tenha sido controversa porque o Lula é uma pessoa que desperta opiniões. (…) Se a pessoa está minimamente ligada com a política do Brasil, ela vai ter uma opinião sobre ele, seja boa ou má. A prisão dele, até pela velocidade com que se deu o processo, e a segunda instância que confirmou a sentença e aumentou a pena, acabou por despertar muitas opiniões, servindo para ferver ainda mais o cenário político do Brasil”, declarou Nauê Azevedo.

A prisão do histórico dirigente do Partido dos Trabalhadores (PT) trouxe também consequências para o período eleitoral, meses mais tarde. Lula chegou a liderar as intenções de voto dos brasileiros em várias sondagens, até ser definitivamente impedido de concorrer ao cargo presidencial, cedendo o lugar a Fernando Haddad, antigo ministro da Educação no seu Governo.

Com o afastamento de Lula da Silva do sufrágio, surgiu assim o lugar para uma figura controversa da extrema-direita se destacar no primeiro lugar das sondagens e nunca mais de lá sair: Jair Bolsonaro.

Com uma trajetória política repleta de polémicas acumuladas, Bolsonaro ganhou dimensão ao apostar numa retórica contra a corrupção. No entanto, foi o esfaqueamento que sofreu, durante um ato de campanha em Minas Gerais, que lhe consolidou o protagonismo, quer no Brasil, quer internacionalmente.

Classificado de “mito” e “herói” pelos seus apoiantes e de “perigo à democracia” por críticos e adversários, Jair Bolsonaro, de 62 anos, conseguiu mesmo alcançar a Presidência da República, na segunda volta das presidenciais de outubro, com 55 por cento dos votos.

Porém, a campanha eleitoral de 2018 foi palco de um fenómeno sem precedentes no Brasil, onde a difusão de ‘fake news’ (notícias falsas na tradução para português) através da rede social Whatsapp, acabou por ter um papel preponderante no desenrolar do sufrágio.

“Eu faço parte de uma corrente que defende que as redes socais, neste momento (eleitoral), foram usadas de uma forma mais negativa. Era muito mais fácil encontrar conteúdos gerados para minar outras candidaturas do que para ampliar a moral de uma determinada candidatura. E muito desse conteúdo eram ‘fake news'”, declarou Nauê Azevedo.

O cientista político referiu ainda à Lusa que um dos factos que mais contribuiu para um enfraquecimento da democracia brasileira foi a difusão de um boato acerca de uma possível fraude nas urnas eletrónicas eleitorais.

“Um dos factos tristes deste ano foi a argumentação utilizada por muita gente de que as urnas (eleitorais) estariam fraudadas. Isso é negativo pois coloca em causa todo o sistema democrático. Vimos um candidato que acabou por ser eleito (Bolsonaro) a dizer que não ia aceitar qualquer outro resultado que não fosse a eleição dele, e isso acabou por levantar algumas questões muito importantes sobre aquilo que vemos como democracia”, disse Nauê.

O professor da UnB afirmou ainda que 2018 acabou por ser um teste à “jovem democracia” brasileira.

2018 foi também um ano de mudança formal na estrutura política brasileira.

“Para começar, tivemos o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) fora da segunda volta, algo que não acontecia desde 1994. Tivemos também o PT fora do Governo, o que não ocorria desde 2014, ou 2016 se tivermos em conta o processo de ‘impeachment’, após um longo período desse partido no Governo” explicou.

Nauê disse ainda que “pela primeira vez, em muito tempo”, o Brasil teve uma transição política. “A última que ocorreu de facto foi do Governo FHC (Fernando Henrique Cardoso, terminado em 2003) para o Governo Lula”, concluiu o cientista político, acrescentando que resta esperar pelo Governo de Bolsonaro para verificar se a efetiva mudança que os brasileiros anseiam se concretiza.

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