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Distância entre Iraque e Portugal medida pela “segurança e um futuro”

A distância entre o Iraque e Portugal é, para a família curda de Frmessk Rashid e Sham, medida pela “segurança e a possibilidade de ter um futuro depois do nada”.

A família curda, que deixou o “nada” do país de origem, encontrou em Braga amigos, sonhos, futebol e esperança.

O cheiro ao outro lado do mundo começa nas escadas. Abertas as portas do pequeno apartamento, num terceiro andar, quase vazio, de um prédio modesto em Braga, vê-se uma mesa, cadeiras, dois sofás, televisão e um fogão improvisado.

“Tudo o que a minha mãe faz é bom”, garante, Sham Dzaiy, uma menina de 12, quase 13 anos, como fez questão de esclarecer.

A Sham juntam-se os irmãos, Muhammad Shyda Ali, de 9 anos, Darya Shtda Ali, de 14 anos e Tablo Dzaiy, de 5 anos. A mãe, Frmessk Rashid, tem 31 anos e o pai de Sham, Shyda tem 37 anos.

Vieram à procura da paz, refugiados do Iraque e são tidos como uma “família modelo” pela Instituição de Acolhimento – Colégio Luso-Internacional de Braga (CLIP) – que os acolhe durante o programa de acolhimento aos refugiados do Governo português.

“É um exemplo, esta família, porque os dois anos [duração do programa de acolhimento] passam rapidamente e esta família decidiu comprar a casa porque não suportavam a renda. Houve a possibilidade de uma ajuda que estão a pagar”, explicou à Lusa Helena Vaz Pinto do CLIP.

Ambos trabalham: “No Iraque ela estava em casa, teve os filhos muito seguidos. O pai já trabalhava na construção civil, é um excelente trabalhador, mas quando chegaram ela foi a primeira a trabalhar connosco, na cozinha e na limpeza”, salientou.

Fugiram de Erbil. Foi o filho mais velho, com voz de adulto como se a explicação lhe tivesse roubado a adolescência que contou a realidade que deixaram: “Era mau. Lembro-me da minha família, dos problemas em diferentes cidades, da guerra, dos ataques às escolas, aos hospitais e não havia nada lá”, descreveu.

Depois de “uma curta passagem por Lisboa e nove meses na Alemanha”, explicou Luísa Pina Vaz, foi a Braga que os trouxe o destino. “Estão completamente integrados”, garantiu.

Aceitaram falar à Lusa, mas a timidez impediu-os de falar em Português, “têm vergonha”, mas todos sabem a língua de Camões. “As aulas de português são as minhas preferidas”, disse mesmo Muhammad, o mal são os amigos.

“Eles não prestam atenção e não aprendem e em inglês aprendem”, explicou.

Amigos. Foi uma das coisas que encontraram em Braga, todos referem. Sham tem mesmo uma “melhor amiga”, a Júlia, com quem, confessa entre um sorriso tímido, que as conversas passam, como entre quaisquer adolescentes, por rapazes.

Sham gosta de cá estar. Sente falta da comida de lá, aquele país onde nasceu, tão distante quanto a paz, mas não nega querer lá voltar: “O meu sonho é ser médica. Se o país melhorar, deixar de ter problemas, provavelmente voltarei”, disse.

No sonho de voltar à terra acompanha-a o irmão mais velho, Darya. “Se não houver guerra, se melhorar [silencio] é o meu país, e sinto falta a minha casa, da minha linguagem dos meus amigos lá”, explicou.

Sonho dos rapazes? Além da “paz e segurança” que encontraram em Bragal, o futebol, ambos quem ser futebolistas, ainda que ainda não tenham clube em Portugal. Mas a bola perde para outros golos que querem marcar.

“Quero ser futebolista mas tenho outros objetivos, como ter amigos, uma vida feliz, apenas ser feliz”, salientou Darya.

Entre a timidez perante a câmara, saltava à vista algo comum aos irmãos, esperança.

“Tem proteção internacional já garantida, são pessoas que precisavam de ser acolhidas, integraram-se perfeitamente. O principal problema que apontavam era a falta de segurança, aqui encontraram uma casa e a possibilidade de um futuro”, terminou Helena Vaz Pinto.

A mais nova, de 5 anos, Tablo, não quis falar, como para qualquer criança de cinco anos, o jogo no telemóvel foi mais importante.

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