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A vida agitada é a grande causa da diminuição das relações sexuais?

mulher homemPoderá a vida ocupada e agitada com trabalho, que muitas pessoas têm, ser a causa mais preponderante na diminuição das relações sexuais? [Sofia Pereira]

Olá, Sofia. A sua questão seria uma excelente razão para escrever um livro. Tentarei arvorar alguns pontos essenciais, mas, por mais que lhe diga, muito ficará por dizer.

A primeira pergunta que colocaria seria a seguinte: A diminuição das relações sexuais gera insatisfação para ambos os elementos do casal ou há apenas uma diminuição fruto de uma evolução da relação e que nada afeta a satisfação, inclusivamente sexual, dentro do relacionamento amoroso? A resposta a esta questão é essencial e determinante para os desenvolvimentos posteriores. Contudo, sem ter essa resposta, deixo-lhe alguns pontos de reflexão. Obrigado pela questão colocada.

Relação a Dois: Um jogo multidimensional

Cada história vivida a dois encerra em si mesma um conjunto de pensamentos comuns e incomuns, refletidos e impostos; sentimentos convergentes e divergentes, entre ambos os elementos do casal, controversos e incontestáveis (pelo menos, aparentemente); emoções fortes e delicadas, confortáveis e desconfortáveis; ações ponderadas e imponderadas, acertadas e desconcertantes; atitudes coerentes e incoerentes com as práticas comuns, ajustadas e desajustadas aos princípios que balizam a visão do mundo de cada um; utopias e fantasias, mitos e verdades absolutas; visões e análises simplistas, complicações que ultrapassam a complexidade dos cenários; dimensões visíveis e não palpáveis, compreendidas e incompreendidas; variáveis interminavelmente persecutórias e insistentemente ausentes; conceitos percetíveis e impercetíveis (objetivos e dúbios).

Este jogo multidimensional vivido entre duas pessoas, acoplado às variáveis idade, duração da relação, presença ou ausência de filhos, entre outras, é rico em desafios. Há uns mais fáceis e outros mais difíceis de resolver (e também de complicar). Dado colocar no centro o tempo que o trabalho ocupa e a agitação que produz, associando a uma menor quantidade e frequência das relações sexuais, posso colocar uma primeira questão: no meio de todas as dimensões será que a melhor resposta à sua questão estará numa boa gestão do tempo e das prioridades?

Gestão de tempo e de prioridades

Não pondo em causa o esforço que possa iniciar no sentido de gerir melhor o seu tempo e as suas prioridades, tornando o quotidiano menos pesado com tarefas intelectuais e/ou físicas provindas do contexto laboral, lembre-se que há muito mais vida dentro da relação para além desse ajuste, que até pode contribuir, na sua relação, para uma maior aproximação, disponibilidade e satisfação sexual e relacional. Não tenho dúvidas que há muito más práticas em muitos países do mundo, incluindo Portugal, no que se refere à cultura do trabalho, havendo uma sobrevalorização da importância da quantidade das horas laborais comparativamente com os outros «espaços» da nossa vida (por exemplo, pessoal, lúdico, social e familiar), levando a que ingenuamente, nalguns casos, e propositadamente, noutros casos, essa política gere grandes desequilíbrios pessoais e relacionais, não permitindo que as pessoas explorem, vivam e sintam, como merecem, a vida que lhes foi concedida, inclusivamente no panorama da sexualidade.

Assim, respondendo à sua pergunta, a vida agitada e ocupada diminui a nossa disposição e disponibilidade para outros afazeres (incluindo a atividade sexual), principalmente se essa agitação for massacrante e não estimulante. Mas, mesmo com uma vida inquietante, as pessoas conseguem dar um saltinho ao ginásio e tirar prazer disso, ficar nas redes sociais virtuais a atualizar o perfil, a enviar mensagens, a colocar «gostos» e a partilhar o que quer que seja, a sorrir para as pessoas que a rodeiam, entre muitas outras coisas. Ora, entrando agora no campo da gestão das prioridades, será mesmo difícil encontrar espaço e tempo para o relacionamento sexual, propriamente dito, com o parceiro ou a parceira? Nem todos os momentos dedicados ao envolvimento sexual têm que durar muito tempo.

É possível encaixar no dia-a-dia, que não necessariamente todos os dias, um momento ou vários de envolvimento sexual, conciliando com todos os outros afazeres, havendo ou não dispêndio de tempo com o que mencionei anteriormente a título de exemplo. Desta forma, coloco outra questão: será que ganhando tempo e diminuindo a agitação, tal como disse, aumentará verdadeiramente a sua disponibilidade para o sexo?

Disponibilidade e comunicação

A disponibilidade que possamos ter ou despender não é o todo essencial dentro de uma relação amorosa – até porque o distanciamento q.b. ajuda a construir positivamente a relação, em oposição à concentração excessiva no «nós» que pode sufocar a relação e em divergência com uma distância exacerbada que germina a indiferença. A ausência dela não será, nalguns casos, uma desculpa para evitar a confrontação com outros problemas do casal? Creio que sim. O desejo, a fantasia, o erotismo e a vontade de «morder e agarrar» o outro constituem alguns exemplos de um todo complexo. Se não forem semeados e cuidados podem levar ao enfraquecimento da relação e, mesmo com tempo disponível, questionar-se-á a razão pela qual não há um investimento na sexualidade da sua relação.

Muitas vezes, aquando do amadurecimento da relação, caímos numa monotonia, deitamos por terra a criatividade, criamos uma desabituação de rotinas (incluindo as sexuais), perdemos o hábito, se alguma vez o tivemos, de apimentar o «antes» como forma de transformar o «durante» num momento ferozmente ou romanticamente apetecido e, consequentemente, permitir que o «depois» seja a motivação, pela satisfação, de pensar nos próximos passos, de novos e bons momentos de envolvimento sexual. O menor envolvimento também é consequência de uma ausência e/ou dificuldade de comunicação verbal e corporal entre ambos, no que se refere à sexualidade. Mais do que a falta de tempo e a indisposição pela agitação provinda do contexto laboral, há uma comunicação, num sentido mais alargado, que deve ser trabalhada, através de um maior conhecimento do próprio, do outro membro do casal e da própria relação, e também da própria estrutura da comunicação ou das comunicações. Comunicações? Sim. Os modelos relacionais podem exigir um tipo de comunicação e de «ser e estar» para a relação sexual, exaltando as componentes verbais e corporais, e outro tipo para a «relação do dia-a-dia».

Há convergências intelectuais que não são sinónimo de convergências sexuais. Podem ser dois campos distintos, que necessitam de ser vividos, sentidos e falados para melhor entendimento, tendo que haver uma boa abertura quanto à capacidade de escuta, compreensão e mudança nos dois níveis. Podem ser vividos a dois tempos, dentro da própria relação. Há casais que estão muito bem sincronizados, excetuando a dimensão sexual da sua relação que não os satisfaz ou, pelo contrário, a dimensão da sexualidade é bastante satisfatória comparativamente com as restantes dimensões. Noutros casos, entre os elementos da relação amorosa, há incompatibilidades (e dificuldades) no desejo e na forma de expressão, ou seja, um membro do casal pode sentir-se livre e muito confortável na expressão corporal, ao contrário do outro, e limitado na expressão verbal, em contraposição ao outro elemento. Mas, ambas as formas são componentes comunicacionais importantes, quer na vivência da sexualidade a dois, quer nas práticas das restantes dimensões da relação. O que se deve fazer com este problema? A incompatibilidade ou a dificuldade na expressão verbal e/ou corporal não significa um ponto final na relação, mas exige que haja a procura da compreensão, de um e de outro, para se encetar os devidos ajustamentos em prol de uma relação a dois vivida em harmonia.

É certo que os constrangimentos sociais à volta da sexualidade dificultam a compreensão desta dimensão e, muitas vezes, mesmo que compreendida, as pessoas estão longe de aceitarem ou terem coragem de avançar para as mudanças. Um trabalho personalizado com cada casal (por exemplo, através da terapia de casal) é o caminho mais eficaz para a resolução dos problemas. Contudo, será na eliminação das tensões que encontraremos a harmonia necessária no panorama sexual e na relação em geral?

A tensão na relação

Algumas zonas de tensão nos casais são úteis para que se sintam satisfeitos, mesmo do ponto de vista sexual, indo ao encontro da expressão do psicanalista Stephen Mitchell: «a degradação do romance, o esmorecimento do desejo, deve-se… à incapacidade de manter a necessária tensão entre ambos». Logo, quando se fala em harmonia não se está a querer dizer «mundo cor-de-rosa». A tensão dentro da relação pode provir do interior da mesma e/ou de tensões existentes fora da relação. Por exemplo, a agitação do contexto laboral (a tensão) pode precipitar uma maior vontade de estar com o outro elemento do casal e de aproveitar os momentos a dois de forma prazerosa no campo sexual (a libertação).

Há também estratégias para lidar com as tensões e melhorar as dinâmicas sexuais e relacionais. Alguns casais, enquanto não estão juntos, vão «escaldando» o ambiente entre eles até ao momento em que se encontram (por exemplo, através de mensagens erotizadas por sms ou e-mail), aliviando a tensão que vivem nos contextos laborais, por exemplo, e transformando a vida sexual numa experiência física e mentalmente sã (que não propriamente branda). Há estilos mais românticos, mais doces, e também há aqueles mais ousados e que até podem gerar alguma tensão, por exemplo em forma de zanga (sendo que ambos podem ser usados na mesma relação). E algumas zangas fazem bem à saúde. No meu livro sobre as relações amorosas, ‘Sentimento de Pertença – Um caminho a percorrer por mim e por ti’, quando me refiro à importância das zangas, uma das formas de tensão na relação, digo o seguinte: «Zangar a bem zangar implica o seguinte: que duas pessoas estejam a comunicar; que os membros do casal estejam atentos um ao outro; que ambos consigam perceber que o “outro” tem atitudes e comportamentos diferentes dos seus; que os dois compreendem que a zanga permite negociar e ajustar a convivência; que os intervenientes se respeitem cada vez mais com o passar dos dias (e dos anos); que o casal consiga enfrentar todos os desafios da sua vida de uma forma bastante positiva e construtiva. (…) Só esta permite que depois surja a genuína e desejada reconciliação. Quem não gosta do momento mágico da reconciliação? A mágoa transforma-se numa vontade emotiva de proximidade que tão bem alimenta a intimidade das relações.».

Como pode constatar, a complexidade dos relacionamentos é evidente e as respostas nem sempre são simples, pois cada relação tem as suas especificidades, requerendo respostas diferentes em momentos particulares. Devemos conhecer a nossa relação e cada um dos seus elementos para encontrarmos as respostas mais eficazes. Agora, questiono o seguinte: essas respostas devem direcionar-se para aumentar os aspetos quantitativos da relação, nomeadamente no campo sexual?

Quantidade e qualidade

Outro aspeto que quero focar é a discussão em torno da quantidade e da qualidade. A quantidade não é sinónimo de satisfação e de qualidade, mas a qualidade da relação, no seu todo e do ponto de vista sexual, é um fator preponderante na satisfação perante a relação amorosa que vive, podendo o aumento desta nova condição não indicar um aumento da frequência das relações sexuais. No entanto, as mensagens a este nível continuam a focar-se muito nos parâmetros quantitativos. Por exemplo, indo ao encontro da sua questão, Esther Perel, uma experiente terapeuta de casal e familiar, no seu livro ‘Amor e desejo na relação conjugal’, diz-nos que «embora não ponha em causa o rigor da visão fornecida pelos meios de comunicação social – as nossas vidas estão sem dúvida mais carregadas de stress do que deviam –, parece-me que, ao focarem quase exclusivamente a frequência e a quantidade das relações sexuais, apenas tocam nos motivos mais superficiais para o mal-estar que tantos casais vêm sentindo.». Efetivamente, passam-nos a mensagem que a frequência e a quantidade é tudo o que interessa verdadeiramente. Por esse facto, até há uma tendência à mentira na resposta à pergunta «com que frequência tem relações sexuais com o seu parceiro/a sua parceira?», havendo uma exacerbação da realidade, porque, não só pela boa imagem social que se quer passar, o(a) próprio(a) sentir-se-á melhor ao responder daquela forma para consigo mesmo(a), pois o lema «quanto mais melhor», na dimensão sexual, domina na sociedade como o critério mais importante da felicidade sexual e relacional e até, nalguns momentos, como estatuto de superioridade.

No meu ponto de vista, é uma visão redutora e irrealista com consequências graves para a construção de um relacionamento saudável. Ainda quanto à quantidade e frequência, lembre-se que estes dois tópicos da prática sexual – frequência e quantidade – sempre foram vistos, nomeadamente no universo masculino, como sinal de virilidade dentro da relação e de poder na sociedade, confinando-lhes um espaço de maior força dentro da relação amorosa e nos contextos sociais. Esta situação ajudou à construção de uma desigualdade entre homens e mulheres, culminando, em muitos casos, em abusos claros desse poder. Desta forma, mulheres e homens tornaram-se reféns desta cultura, dificultando, no mundo atual, a desconstrução desse panorama. A evolução dos tempos e das mentalidades tem transformado esta realidade, complexificado as relações por dentro e por fora, mas ainda há muito a trabalhar, a desconstruir e a desmistificar. A maior parte das pessoas está a deparar-se com novos desafios e respostas do passado (nalguns casos são «não respostas», isto é, estão bastante desatualizadas, logo ineficazes ou pouco eficazes), gerando, assim, uma grande confusão na resolução dos problemas das relações. Há também questões e práticas do passado que são perpetuadas por várias pessoas e meios de influência, dificultando a eficácia das respostas aos problemas atuais e mesmo a identificação desses problemas. Para além destas dificuldades há uma enorme desinformação que paira na nossa «sociedade do conhecimento», inclusivamente quanto aos relacionamentos interpessoais, aos seus desafios e respetivas resoluções. Portanto, se as pessoas, as relações, a sociedade e o mundo evoluem, temos que cada vez mais procurar as respostas mais ajustadas às nossas necessidades e ter essa abertura de análise e de mudança comportamental. Se nos fecharmos, se reduzirmos ou não alargarmos o campo de visão, se nos deixarmos levar pelas influências caducas, a insatisfação com a vida e com a sexualidade manter-se-á ou agravar-se-á. Questiono: a partir do momento que descobrir o seu caminho, no trajeto traçado a quatro pés, resta caminhar serenamente sem esperar novos desafios?

A minha relação (sexual) e a evolução na linha do tempo

Cada relação assume uma identidade única e vai-se transformando ao longo do tempo. A relação não será sempre igual. Temos de acompanhar a evolução do «eu», do «tu» e do «nós», respeitando as suas oscilações, inclusivamente na dimensão sexual, sem se resignar. Por isso, não podemos hibernar dentro de uma relação amorosa. É fundamental que todas as pessoas procurem explorar, de forma continuada (mas não obsessiva), o seu mundo relacional e perceber, a dois, se a melhor solução para o seu problema é diminuir a carga laboral; redefinir prioridades; gerir melhor os afazeres e dinâmicas na linha do tempo; investir em mais e melhores momentos de envolvimento sexual; aprender a comunicar verbalmente e/ou com o corpo de forma diferente e mais livre; conhecer melhor os desejos, vontades e necessidades de cada um; erotizar mais a relação; enveredar por uma ajuda profissional; entre outros aspetos a considerar.

Identifique os problemas, verifique se são mesmo problemas (tal como fiz com a introdução da questão inicial – A diminuição das relações sexuais gera insatisfação para ambos os elementos do casal ou há apenas uma diminuição fruto de uma evolução da relação e que nada afeta a satisfação, inclusivamente sexual, dentro do relacionamento amoroso?), procure compreendê-los, reflita individual e conjuntamente, defina estratégias e aja com determinação.


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