Como ter tempo para mim, com um filho, um marido preguiçoso e emprego?

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“Não tenho tempo para mim! Como posso encontrar formas de tê-lo, sabendo que tenho um filho de tenra idade, um marido preguiçoso e um trabalho a tempo inteiro?” [Leonor Madeira]

Olá, Leonor. Obrigado pela questão colocada. É uma dificuldade bem presente nas famílias e um fator de stress que gera instabilidade individual e familiar.

Ouço, em contexto de consulta (individual e de casal), imensas queixas pela dificuldade de conciliação dos vários papéis que as pessoas têm de assumir – trabalhadores(as), cônjuges, pais, entre outros que completam este cenário complexo. Não só pelo tempo que todos eles obrigam a despender, como também pelas dificuldades pessoais inerentes ao exercício dos papéis propriamente ditos e ao ambiente envolvente – por exemplo, relacional (num sentido mais restrito), social e político.

Todas estas tensões, internas e externas, que nos tornam mais vulneráveis, enfraquecem as barreiras entre os vários mundos da nossa vida, levando a que haja, por exemplo, interferência dos problemas do trabalho na família e vice-versa, gerando um mal-estar geral, que no limite leva-nos a um “só estou bem onde não estou”. Dito isto, como nota introdutória, permita-me colocar-lhe a seguinte questão: Quer apenas mais tempo ou deseja (também) mais qualidade de vida, satisfação e bem-estar consigo própria e na sua relação com os outros contextos e com as outras pessoas?

Centrando-me na questão em particular, digo-lhe que as suas palavras, de uma forma explícita e implícita, transportam uma insatisfação por “estar com tudo nas suas costas”. Tem um trabalho que lhe ocupa muito tempo, um filho para cuidar (que, sendo pequeno, requer muitos cuidados) e, pelo que me diz, um marido pouco colaborante nas tarefas diárias (de responsabilidade do casal). À partida digo-lhe que a resolução mais eficaz está dentro das especificidades do casal e das suas vidas, pelo que as melhores estratégias surgirão após uma análise das vossas dinâmicas enquanto casal e pais e, ainda, das histórias de vida de cada um. Deixo, assim, a minha disponibilidade para posteriormente dar-lhe esclarecimentos mais precisos (isto é, enquadrados na sua realidade específica). Todavia, reportando-me apenas aos dados que me apresenta, procurei responder à sua questão oferecendo-lhe cinco pontos de reflexão (entre muitos que poderia lançar):

Comunique.

A questão que me coloca deve ser levantada dentro do próprio relacionamento e discutida seriamente, tendo que sair da discussão um plano de resolução, com medidas concretas e claras para uma mudança comportamental, a dois, que permita mudar favoravelmente o cenário. Acontece, por vezes, uma ausência de comunicação do casal, ao estilo “não tenho nada que lhe dizer, porque está claro como água e ele(a) tem que lá chegar”. Noutras vezes, num registo diferente do anterior, o casal já não se ouve, ou não tem capacidade de escutar, mesmo que falem bastante, pelo que deixa de haver comunicação ou, pelo menos, uma comunicação ineficaz acaba por proliferar (pela ausência de escuta e consequente feedback). Se não conseguem comunicar procurem ajuda, antes que se esgotem as reservas de saúde de um ou de ambos e da própria relação.

Delegue tarefas.

A preguiça do seu marido combate-se com objetivos, tarefas e datas de cumprimento. Não peça ajuda ao seu marido. Peça colaboração nas tarefas, que são da responsabilidade de ambos. A ajuda tem que ser mútua e não somente de um dos lados. Se um dos elementos não cumpre com as suas obrigações é evidente que está a falhar (que é diferente de não ajudar). Defina e distribua tarefas, de preferência conjuntamente, por mútuo acordo, para serem realizadas a tempo e horas. Se tiver abertura do seu marido, discuta com ele a melhor distribuição, procurando chegar a consensos ou, após uma negociação, cederem equitativamente nalguns pontos. Se houver grande preguiça/resistência do marido – dado, por exemplo, já estar habituado às suas reclamações, mas quase nunca às consequências (porque, de uma forma ou de outra, as coisas aparecem feitas) – apresente-lhe a sua divisão de tarefas, de forma clara e justa, e, se achar interessante, diga-lhe que ele é a pessoa mais capaz naquelas tarefas. No final, as tarefas ficarão distribuídas e as responsabilidades também. Nota: A delegação de tarefas é uma das competências mais importantes para o sucesso e bem-estar de uma organização – neste caso, aplique à sua ‘organização familiar’.

Lute pela equidade na relação.

É um grande desafio para os novos relacionamentos. Infelizmente, ainda estamos muito longe de uma verdadeira equidade. Mas, se não desbravarmos caminhos vamos prejudicar-nos e às gerações futuras também. Lembre-se que o seu filho olhará para os modelos familiares como exemplos a seguir. Se o seu marido reivindicar os direitos do homem (com letra minúscula), pela força da tradição, diga-lhe que os velhos tempos já lá vão e que agora «é assim», ou seja, com uma co-responsabilização pela relação comum e pelo respeito pelas individualidades. Como escrevi no livro ‘Sentimento de Pertença – Um caminho a percorrer por mim e por ti’: «Seria positivo para a sociedade elevar a equidade nas relações amorosas para um patamar inatingível (para que não seja destruída) e, simultaneamente, acessível a todos (para que possa ser cultivada)».

Faça uma boa gestão do tempo.

Peço-lhe que tente olhar para a forma como está a governar o seu tempo. Questione-se se está a fazer a melhor gestão das atividades/tarefas (por exemplo, laborais, familiares e sociais) dentro do seu tempo; se é possível rentabilizar o tempo; e se o seu planeamento é exequível ou, a haver planeamento, é ilusório (gerando frustração contínua) – é bastante reconfortante para o nosso bem-estar um bom planeamento das tarefas, do tempo e modo de execução das mesmas, da definição de prioridades e de objetivos, entre outros aspetos a considerar. Planeamento e organização são competências que, quando bem usadas, são muito úteis porque tira-nos peso das costas e capacita-nos quanto à eficácia e eficiência na resolução dos desafios da vida.

Cuide de si.

Na vida é importante encontrarmos espaços e momentos equilibradores e gerarmos um ambiente harmonioso na sua conjugação. Será que está a aproveitar, por exemplo, as oportunidades de convívio social, de prática de atividade física, de lazer com o seu filho, com o seu marido e consigo própria? Tem parado no tempo ou ele está sempre a passar por si? Olhe para si, exija mais de si e dos outros. Não tem que carregar o peso de todas as responsabilidades e deve procurar fontes de prazer. Se não estiver bem consigo própria dificilmente conseguirá dar boas respostas nos vários contextos da sua vida. Este pormenor – cuidar de si – torná-la-á mais leve e, mais facilmente, voará com um belo sorriso para um destino apaixonante.


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