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Como ter uma relação aberta com um filho fechado?

filha e mãeComo consigo ter uma relação aberta e de confiança com a minha filha de 15 anos? Ela é muito fechada. Não se abre comigo. [Helena Novais]

Olá, Helena. Obrigado pela questão colocada.

Todas as relações têm uma história, construída com o poder de várias dimensões, acontecimentos, pensamentos, emoções, entre outros componentes. A confiança é uma dimensão basilar dessa construção e a sua conquista e consolidação abrirão espaços para momentos de autorrevelação e partilha, reforçados, desejavelmente, com apoio emocional.

Nessas histórias construídas há duas diferentes pessoas, com características singulares (em parte influenciadas pela relação de ambas). Dito isto, diria que, estando atenta, encontrará muitas respostas nessas histórias individuais e partilhadas. A partir daí conseguirá analisar melhor a realidade e centrar-se nas mudanças requeridas para uma maior proximidade entre mãe e filha.

Não esqueça, porém, que na idade da sua filha há também outras pessoas que esperam a sua confiança e abertura, sejam elas namoradas ou namorados, amigos ou amigas. Ou seja, há assuntos, tempo e espaço para todos os indivíduos que sejam significativamente importantes na vida da sua filha.

Pode sentir, nalgum momento, que está a perder a sua filha, pelo distanciamento ou não abertura da mesma, mas deve consciencializar-se que pode apenas estar a viver uma nova fase da vida da sua filha, em que ela é mais autónoma, mais ‘senhora de si’, mais capaz e mais curiosa para testar novas realidades, que estão para além do universo familiar e da visão do mundo que os pais lhe foram apresentando.

Todavia, mesmo considerando todas estas novas realidades, não deve deixar de persistir no estabelecimento, tal como diz, de uma relação aberta e de confiança, porque a mãe continuará a ser uma importante referência para a filha – à sua maneira, claro! Com o que já disse até agora, estou a pedir-lhe que olhe para o passado e para o presente da relação e que analise e sinta a evolução, considerando que não é apenas fruto dos trabalhos individuais e relacionais das duas, pois também há imensas variáveis externas que influenciam os percursos.

Aquando desta análise, questione-se e, se for necessário, questione a sua filha, de modo a perceber se as práticas são consonantes com o melhor caminho para atingir os objetivos ambicionados. O que poderia ter feito de forma diferente? O que poderá fazer para melhorar? Quando devo ceder? O que devo compreender, respeitar e aceitar?

Não tendo dados suficientes sobre o seu caso em particular, deixo-lhe sete dicas (que espero poderem ajudar a criar um clima facilitador para o vosso relacionamento):

Dica 1. Compreenda e respeite as opções da sua filha.

Independentemente das opções da sua filha seguirem a norma ou desviarem-se da mesma, ou irem ao encontro ou contra as suas expectativas, procure compreender e respeitar as opções dela. Tem o direito de questionar, orientar, duvidar, mas se optar por uma total intransigência, que defenda apenas a sua perspetiva, corre o risco de ver a sua filha a distanciar-se. Há pais que desrespeitam os filhos e as suas escolhas e depois não compreendem o afastamento dos filhos e exigem-lhes um esforço para confiarem neles e abrirem-se com eles. Como agiria se estivesse no lugar oposto?

Dica 2. Apoie (emocionalmente) a sua filha.

A criação e a consolidação da confiança estão fortemente relacionadas com o apoio emocional. Se em substituição deste apoio surge o ajuizamento, de forma continuada, a perceção de pessoa confiável, e de relação de confiança, esvai-se. Lembre-se que os pais são peças muito importantes na construção da identidade dos filhos e uma boa relação reforça um bom desenvolvimento global, sendo que o contrário fragiliza bastante o crescimento dos filhos a vários níveis.

Dica 3. Aceite o crescimento natural da sua filha.

Todas as idades têm novos e inúmeros desafios, abarcando transformações pessoais, sociais, relacionais, físicas, psicológicas, emocionais, entre muitas outras. Acompanhe, oriente, aconselhe, ensine, aprenda, ajuste-se, escute, observe, partilhe, adapte-se, apoie, aceite, e faça muito mais e melhor de dia para dia. De forma serena, a sua omnipresença na vida da sua filha será mais rica se permitir que os ritmos sejam os mais naturais possíveis, pautados pela sabedoria da vossa relação única, genuína e refletida, num processo recíproco de aprendizagem e de ajustamento.

Dica 4. Conquiste a cabeça e o coração da sua filha.

Compile no mesmo saco o seguinte: valores, princípios, regras de conduta, afetos e positividade. De que vale ajudar a (re)conhecer o caminho até à meta, balizando o trajeto, se não conseguir ser um exemplo motivador, um ‘porto seguro’, uma alma energizante? É preciso força mental para chegar à meta e a força relacional, munida de afetividade, é essencial para o sucesso. Se nutrir bem a relação, com os ingredientes essenciais, a sua filha não só se lembrará das ‘dicas de sobrevivência’, como também acederá à sua memória os abraços silenciosos reconfortantes. Aí tem a evidência que conquistou a cabeça e o coração da sua filha, pois ela verá em si uma pessoa em quem pode confiar (sempre) e será mais forte do que nunca.

Dica 5. Admita que o mundo da sua filha não se limita à vossa relação.

A sua filha é um ser do mundo, partilhando a vida com outras pessoas para além da mãe. É natural e saudável que assim seja. Nesses mundos relacionais viverá diversificadas experiências, importantes para o seu desenvolvimento, e nalgumas fases aproximar-se-á da mãe, enquanto noutras adotará uma postura mais distante. Não encare os momentos de afastamento como erros seus ou a destruição da vossa relação. Nesses momentos não se resigne, procure investir emocionalmente, de igual forma como nos outros períodos, com mais ou menos ‘tempo de antena’, porque a solidez relacional mede-se, fundamentalmente, pela qualidade e não pela quantidade.

Dica 6. Facilite a comunicação entre mãe e filha.

Comunique diretamente no olhar da sua filha e não censure o que ela lhe passa só porque não concorda ou não se sente confortável. A abertura que deseja da sua filha para consigo também depende da sua capacidade de abertura, de escuta, de apoio emocional, da sua assertividade e da sua energia positiva. Em casos muito complicados (i.e., percecionados como difíceis de resolver) pode sempre procurar ajuda.

Dica 7. Ame incondicionalmente a sua filha.

É o amor, acima de tudo, que vos une para toda a vida. Alimente-o, verbalize-o e corporalize-o. Desafio-a a expressá-lo de forma livre, descomplexada e diversificada, privilegiando as palavras, os atos, os gestos, e todas as outras formas que consigam encher o coração da sua filha com o seu amor. Seja amorosa e incondicionalmente persistente na expressão do seu amor por ela.


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