Música

Staff Benda Bilili: A música é a respiração do Congo (vídeo)

staff_benda_bilili_articleRumba-blues oriunda das ruas de Kinshasa e tocada por oito músicos, seis dos quais com graves deficiências físicas devido à poliomielite, é a proposta dos Staff Benda Bilili, que atuam esta noite na Casa da Música. Festa prometida com sons africo-cubanos, emanados de instrumentos criados pelos próprios e que exultam o verdadeiro amor à música.

Oriundos de um país que após a independência viveu anos de terror e de miséria sob o domínio do ditador Mobutu Sese Seko e, posteriormente, os horrores da guerra civil, os Staff Benda Bilili, que significa «para além das aparências», dizem-se “apolíticos”, optando por nas suas músicas retratarem as difíceis condições de vida do povo congolês, em geral, e do da capital Kinshasa, em particular. Mas não se coíbem, contudo, de intervir no quotidiano da população, por exemplo, apelando à vacinação contra a poliomielite, ou ao voto nas eleições.

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Aliás, esta doença, que afeta uma grande parte da população da República Democrática do Congo, tem uma forte marca no coletivo de músicos, já que cinco dos oito elementos que hoje atuam na Casa da Música são paraplégicos, precisamente por terem sido vítimas da poliomielite quando crianças nos tempos em que a doença grassava pelo país descontroladamente. Mas essa circunstância, e para os próprios não passa disso mesmo, nunca os impediu de prosseguirem o seu sonho e de o concretizarem em músicas que têm deliciado o(s) público(s) de todo o Mundo.

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Hoje a vacinação é uma realidade e a situação é bem diferente e para isso também têm contribuído os Staff Benda Bilili.

Estreia no Porto

Pela primeira vez em Portugal em nome próprio, depois de uma passagem, em 2010, pelo Festival Músicas do Mundo, em Sines, o coletivo congolês faz o que os próprios designam por “rumba-blues”. Herdeiros da riquíssima tradição musical de Kinshasa, cidade chave no desenvolvimento da música popular urbana da África subsariana, este grupo de 13 músicos (cinco não se deslocaram a Portugal) honram as origens africanas fortemente influenciadas pelas sonoridades cubanas, com ritmos contagiantes, vozes vintage e improvisação q.b., criando ambientes de festa em que a dança acontece naturalmente e de forma esfuziante.

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Aprenderam por eles a tocar em instrumentos feitos pelos próprios nas ruas de Kinshasa e hoje fomentam essa criatividade junto dos mais jovens. Roger Landu, o mais jovem do grupo com 20 anos, é a prova disso, acabando recrutado para o grupo há dois anos. Satongé é o nome dado ao instrumento que o próprio Landu criou com uma simples lata usada, um pedaço de madeira e uma corda de metal. Variando a tensão da corda ao puxar o aro de madeira, o solista obtém uma variedade imensa de tons, que emprestam mais colorido à imagem sonora que a banda transmite.

“É um dom que Deus nos deu”, sustenta Ricky Likabu Leon, que juntamente com Coco Ngambali, esteve na fundação dos Staff Benda Bilili há 30 anos, a propósito de serem todos autodidatas. Para o mais velho do coletivo, com 61 anos, “a música é a respiração do Congo”.
“A música é muito importante para o país, é como que os pulmões, é como o país respira… No Congo há mais de 50 dialetos, mas a música liga toda a gente”, explica Ricky Likabu, referindo a propósito da excelente aceitação internacional do projeto: “Estamos muito felizes por podermos levar a nossa música ao Mundo. Esperemos que esteja muita gente no concerto, a quem prometemos que dentro em breve haverá um segundo disco com novas canções”.

Novo álbum em 2012

Os Staff Benda Bilili têm apenas um álbum editado, «Très Très Fort» (2009), e que lhes valeu o prémio Womex, maior mostra mundial de «world music», mas apontam para a primavera de 2012 o lançamento do segundo registo de originais. «Bougé le Monde» (Mexam o Mundo) é o título já escolhido e dará continuidade, não só à sonoridade do grupo, mas, como revela Ricky Likabu Leon, igualmente aos temas da “vacinação contra a poliomielite, do amor, da violência das ruas, da corrupção, da vadiagem, dos problemas das famílias pobres” da RD Congo.
Desde que foram descobertos nas ruas de Kinshasa pelo produtor belga Vincent Kenis – responsável pela revelação de bandas como Konono nº 1 e Kasai Allstars –, os Staff Benda Bilili já foram aclamados no Canadá, Japão e por toda a Europa, tendo uma digressão agendada para o início do próximo ano na Austrália e Nova Zelândia.

 

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Já por terras congolesas as coisas funcionam de outra forma. “Em Kinshasa, normalmente são concertos pequenos e privados, a convite da embaixada de França ou outras”, explica Likabu Leon, acrescentando: “Lá é muito diferente!”.

Os concertos por lá acontecem, muitas vezes, na rua, informalmente, juntando muita gente em torno dos músicos, mas nada organizado. São como que ensaios. Aliás, a banda ensaia paredes meias com o zoo de Kinshasa por a zona ser mais sossegada.

Sobre os Staff Benda Bilili, os realizadores Renaud Barret e Florent de la Tullaye filmaram o percurso da banda desde 2005 e apresentaram o filme documentário «Benda Bilili!» na Semana dos Realizadores do Festival de Cinema de Cannes, em 2010.

O filme em Kinshasa foi projetado em diversos pontos da cidade, em espaço aberto nas ruas para a população assistir. Um pouco à semelhança do que acontece com os concertos.
Hoje, na Sala 2 da Casa da Música, a partir das 22h00, vai ouvir-se o que de mais despojado se pode ouvir. A pureza com que o grupo interpreta as composições faz o ouvinte sentir a verdade de vidas que não vive(u), de palavras que não percebe, mas que sente…

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Na hora e meia prevista, em que a banda tocará 11 temas, Ricky Likabu Leon (voz), Coco Ngambali (guitarra solo e voz), Théo Nsituvuidi (guitarra e voz), Kabamba Kabose Kasungo (voz), Djunana Tanga-Suele (voz), Paulin «Cavalier» Kiara-Maigi (baixo), Roger Landu (satongé e voz) e Montana Kinunu Ntunu (percussão) prometem música festiva, esperando que aconteça como na passagem por Sines: “Muita gente e sempre a dançar”.

Os bilhetes custam 10 euros.

Vídeo:
https://www.youtube.com/watch?v=bwI1_RHkMiM

Fotogaleria:
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