Música

Sérgio Godinho: “Gosto é de fazer aquilo de que gosto”

sergio_godinho_1Hoje é o primeiro dia do resto da vida, não de Sérgio Godinho, nem tão pouco da sua carreira musical de quatro décadas, mas das canções que compõem o seu mais recente disco de estúdio, que é já o 21º. O Coliseu do Porto recebe esta noite a primeira apresentação ao vivo de ‘Mútuo Consentimento’, em que o músico, natural da Invicta, será acompanhado, como habitualmente, por Os Assessores e ainda pela Roda de Choro de Lisboa.

‘Mútuo Consentimento’ é o mais recente álbum de originais de Sérgio Godinho, um disco de 12 canções que conta com muitos convidados, para além do suporte musical da banda que acompanha o músico há pouco mais de uma década, Os Assessores, com o diretor musical Nuno Rafael a assumir mais uma vez um especial protagonismo. Bernardo Sasseti, Noiserv, Hélder Gonçalves, Manuela Azevedo, Minta, António Serginho e Roda de Choro de Lisboa são os músicos que participam no disco, iluminando-o e colorindo-o de tantas formas diferentes como aquelas que a respetiva criatividade expressa. Daí nasceu um quadro sonoro diversamente colorido em que o traço de Sérgio Godinho é perfeitamente percetível.

O novel disco junta-se desta forma ao livro ‘Sérgio Godinho e as 40 Ilustrações’, que acaba de chegar às livrarias, na celebração da passagem de 40 anos sobre a edição de ‘Os Sobreviventes’, o primeiro disco de uma carreira recheada de êxitos, em disco, em livro e em palco.

Em conversa com o PT JORNAL, Sérgio Godinho fala do passado e do presente de um percurso artístico riquíssimo, viajando ainda ao futuro, à boleia na sua “vontade de criar constante”.

Podemos olhar o tema de abertura do álbum, ‘Mão na música’, como uma espécie de prefácio de um disco de contos cuja paleta sonora é bastante e diversamente colorida?

Sim, de certo modo é um prefácio visto que não é propriamente uma canção… Digamos, são uma série de vinhetas poéticas, de definições poéticas da música, cada qual independente, mas interligadas, com uma batida e um fundo musical que transporta todo um universo para, então, no resto começarmos com as canções, que é o caso logo da segunda, a ‘Bomba-relógio’. Esse tema é quase uma declaração de princípios sobre a música, claro que uma declaração poética.

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Nesse sentido, 40 anos depois e tendo o tema ‘Mão na Música’ como pano de fundo, é no palco que a música ganha vida e tamanho, ou dimensão?

Sem dúvida, e é aquilo que gosto mais, porque, para já, há aquele imponderável que é a noção do risco e da aventura que é cada espetáculo, que uma vez começado tem que ser conduzido até ao fim e bem conduzido, com todo o brio, toda a energia e emoção. E estou a falar em nome do coletivo, porque sou eu e os músicos… Claro que a gravação de um disco é um registo importante porque é um ponto de referência importante para nós e, espero, para o resto das pessoas. É um ponto de referência da vida das canções, mas elas depois continuam a existir e a pulsar e, sobretudo, o trazê-las diretamente às pessoas e o levá-las a outros lugares onde as pessoas têm vontade de fazer, chamemos-lhe, essa troca direta, que nos tempos que correm é bom que ocorra [risos]. Mas a nível das emoções é, sem dúvida, muito importante… E acho que sim, que é no palco que as canções fazem mais sentido.

Nessa dimensão das emoções, o público acaba por ter um papel muito importante para as músicas?

Sim, até porque há vários públicos, não só de sala para sala, há auditórios mais pequenos e outros maiores, o que não quer dizer que haja menos emotividade num auditório maior, como o caso dos Coliseus, porque também aí se pode criar intimidade, mas o nível de energias dos públicos é diferente. Há até algumas terras em que as pessoas são mais introvertidas e noutras mais extrovertidas, por exemplo, acho que no Minho as pessoas são mais extrovertidas, assim como no Porto… Mas sinto que cada experiência é realmente diferente e, por vezes, até surpreendente. Acontece, por vezes, fazer concertos ao ar livre, é certo que as condições são diferentes, e já estive em vários, como por exemplo no Sudoeste, onde já estive duas vezes, e já tinha feito Vilar de Mouros, e reajo de uma maneira muito instintiva às energias que também vêm do público e estabelece-se uma corrente, com certeza, diferente.

Esse é também parte do segredo de uma carreira de 40 anos, que não é assim tão comum como se pode pensar…

Pois não, pois não!…

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Mas é também essa reação instintiva, tanto na composição como no contacto com o público, que está o segredo da longevidade?

Bem, no momento da criação mais do que o instinto é capaz de estar a intuição criativa, mas para além disso há também a vontade criativa. Não quer dizer que a pratique sempre, mas tenho uma vontade de criar constante, nunca deixei de ter vontade de criar. Há alturas que não estou a fazer coisas criativas, mas é uma vontade repetida e há uma certa altura em que começo a sentir a falta disso. Já está no meu sangue, no sangue de origem e no sangue que vai sendo reciclado pelas experiências e pela vida…

E também pelos convidados que tem colecionado ao longo da carreira… Ou seja, também eles acabam por ser um elemento importante nessa criatividade?

Sim, sim, porque trazem outras luzes… Vamos lá ver, até com a minha banda, Os Assessores, porque já estamos juntos há cerca de 11 anos, desde o início deste século, e eles trazem-me outras leituras possíveis daquilo que escrevi ou que compus em cru com a guitarra, eles trazem-me leituras ampliadas e muitas vezes até surpreendentes. E isso acontece também neste disco ‘Mútuo Consentimento’… Nós próprios, eu e o Nuno Rafael, que é o diretor musical e coprodutor do disco, se nalgumas canções era o território que queríamos explorar, noutras sentimos a necessidade que viesse alguém de fora dar outra leitura. Foi o caso do Hélder Gonçalves no ‘Mão na música’, do António Serginho, que é um excelente percussionista do Porto, no ‘A invenção da roda’, do Noiserv, da Roda do Choro de Lisboa e do [Bernardo] Sasseti, que é um caso ainda mais envolvido… Ou seja, ‘Em dias consecutivos’ fizemos uma canção juntos, música dele e letra minha, e foi uma partilha que me deu enorme prazer, foi uma partilha criativa e o Bernardo é uma pessoa que comunga dos mesmos entusiasmos que eu e é um tipo muito engraçado…

Esse é um tema diferente dos restantes e de uma beleza fantástica…

É uma canção que traz uma outra leitura, porque é uma música sombria e macabra, mas ao mesmo tempo uma espécie de… Bem, houve pessoas que se lembraram do universo do Tim Burton a propósito desta canção. Não pensámos nisso, mas percebo essa sensação dos mortos-vivos que se cruzam na rua à saída dos empregos, há muito essa paranoia urbana, não será bem uma paranoia, mas esse «rame-rame» urbano, em que há pessoas que não sabem que já estão mortas e há pessoas que não sabem que já estão vivas… E não sei qual é pior! (risos).

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E este é um ‘Mútuo Consentimento’ entre quem?

Primeiro, de mim para comigo e, depois, entre os outros, as partilhas e a vontade de fazer trabalho criativo conjunto, de tocar música, de ter o prazer da música e de partilhá-la com os outros. No fundo, são essas partilhas todas.

Tem uma carreira musical invejável e riquíssima e que já leva 40 anos, lamenta de alguma forma não ter tido uma carreira de ator mais ativa?

Se lamento ter tido uma carreira de ator intermitente, como diz a canção? Sim, mas tenho que fazer escolhas… Tenho formação de ator, mas o que acontece é que fui fazendo algumas peças que considerei importantes, fiz duas com o Ricardo Pais, com o Canijo e fiz esta, mais recentemente, com o Jorge Silva Melo e os Artistas Unidos, porque foram sempre convites que considerei especiais e que valia a pena desviar-me do caminho que seguia e calhou também em alturas em que me podia desviar. Agora, há outros convites que me foram feitos e que eram interessantes, mas que calhavam em cima da preparação de um disco, ou coisa assim, porque é preciso muita disponibilidade para o teatro e não é só o tempo para os ensaios, é também o tempo de representação. Por exemplo, fizemos a peça ‘Onde Vamos Morar’, primeiro, em Lisboa e no ano seguinte andámos em digressão e acabámos no FITEI, no Porto, no Teatro Nacional S. João, e tive que recusar alguns espetáculos, até com prejuízo financeiro… Mas não me estou a queixar (risos), porque gosto é de fazer aquilo de que gosto.

Ter mundo foi importante, ou seja, a estadia no estrangeiro, no início de carreira, e a passagem por diversos países foram importantes para o seu crescimento enquanto artista?

Absolutamente, foi importantíssimo… O acesso a outras culturas, outras formas de expressão, o viver em cidades estrangeiras e vivi em várias, esse bombardear de outras realidades faz pensar e faz criar a partir daí… E o ter vivido coisas como o maio de 68, em Paris, ou ter estado no musical ‘Hair’ durante dois anos deu-me traquejo. Fiz muita coisa e, realmente, foram anos riquíssimos em que se adquire bagagem, mas é uma bagagem que também se quer adquirir, porque há pessoas que as coisas passam-lhes ao lado e elas nem reparam… Tem que haver também essa curiosidade.

No início deste ano, em conversa com Roger Taylor e Brian May, a propósito da exposição celebrativa do início de carreira dos Queen, que comemora também este ano as quatro décadas, a grande memória deles é do quão difícil foi o arranque de carreira, as dificuldades financeiras, etc… O que relembra do seu início de carreira?

Ah, eu continuo quase tão teso como no princípio (risos), o que não é bem o caso dos Queen… Aliás, neste momento as coisas vão agravar-se com esta subida de 6% para 23%, que vai inviabilizar muitos espetáculos que fazemos à bilheteira e vai inviabilizar mesmo o acesso de muitas pessoas e isso é algo que lamento bastante.

E a Internet é um bem ou um mal para a música?

O que acontece é que houve um buraco negro durante anos em relação à Internet e isso não vai ser muito recuperável, porque as editoras não ligaram muito ao fenómeno, por um lado da pirataria, dos downloads ilegais, das cópias mais ou menos privadas e quando acordaram já era um pouco tarde. Também é muito difícil impor legislação na Internet e, de certo modo, é preciso ser imaginativo para utilizar a Internet em favor próprio. Confesso que não tenho todos os instrumentos, há pessoas que trabalham comigo que procuram ter isso, mas houve um atraso histórico… Penso que a Internet pode ser um bem e deve ser, agora está extremamente desregulada e é difícil regulá-la em certos aspetos, porque se abriu uma ‘caixa de Pandora’…

Sendo uma pessoa bastante criativa, patente em 40 anos de carreira, artisticamente o que é que ainda lhe falta fazer?

O que quero é fazer bem as coisas que me vão surgindo… Sei lá, gostava de escrever um bocado mais do que escrevo, queria também voltar à escrita para crianças, porque é uma coisa em que me sinto bem… No próximo ano vai sair um livro com as 40 crónicas que escrevi para o Expresso sobre canções de outros e que se chama ‘Caríssimas 40 Canções’. Este ano saiu, acabou de sair, outro livro, bastante interessante, e aqui está a criatividade dos outros… É um livro que eu e o João Paulo Cotrim organizámos e que se chama ‘Sérgio Godinho e as 40 Ilustrações’ e que tem 40 letras minhas ilustradas pelos melhores ilustradores portugueses. É um livrão que considero muito interessante, porque é mais uma leitura dessas canções e que é surpreendente muitas das vezes…

Fotogaleria:
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