Como lidar com a possível homossexualidade do filho?

Homossexualidade

“A minha filha tem 17 anos e começou a namorar com uma rapariga, mas sempre namorou com rapazes. Pode ser só uma fase ou devo preocupar-me?” [Dulce]

Dulce, obrigado por permitir partilhar a sua questão e por se questionar. Compreendo a sua perspetiva e a sua questão. Já tive oportunidade de escrever sobre este tema, num livro que lancei recentemente, intitulado ‘Sentimento de Pertença – Um caminho a percorrer por mim e por ti’, mas agora direcionarei os meus esforços para a sua questão em particular, procurando ser claro e sucinto. Estou disponível para esclarecimentos adicionais.

Em contexto de consulta, tenho recebido, por um lado, pais que se questionam sobre a ‘normalidade’ da homossexualidade, após os filhos assumirem a sua orientação sexual, não sabendo o que fazer, por terem sido ‘apanhados de surpresa’, defraudando as suas expectativas, e também por terem dificuldades em aceitar (querendo alimentar a esperança de haver uma ‘mudança’ num futuro breve). Nalguns casos, acabam por questionar o exercício da sua parentalidade, sob a forma de «Em que é que falhamos na educação do(a) nosso(a) filho(a)?”, ou culpabilizando as companhias dos filhos: “Eu bem me parecia que não devíamos deixar andar tantas vezes com aquele(a), que já apresentava umas tendências homossexuais”.

Por outro lado, aparecem jovens que se sentem magoados, tristes e revoltados pela incompreensão e não-aceitação dos pais quanto à sua orientação sexual. Ambos em sofrimento, pais e filhos. De costas voltadas, incompreendidos, magoados, entram, por vezes, pelas vias mais perigosas. Por exemplo, há pais que perseguem os filhos para que não alimentem essas relações, que recusam a sua homossexualidade, entrando em estado de negação, que entram em ‘jogos emocionais’, de manipulação, bastante perigosos e injustos – criam-se autênticas guerras, nalguns casos; e há filhos/jovens que, pela recusa e total falta de apoio dos pais, se isolam, vivem com um medo constante, alimentam uma raiva desmedida, entrando, nalguns casos por comportamentos perigosos para a sua saúde e bem-estar (por exemplo, automutilação) e que, no limite, podem conduzir a situações bem mais graves.

No livro ‘Sentimento de Pertença – Um Caminho a Percorrer por mim e por ti’, já mencionado, escrevi o seguinte: “Os argumentos que legitimam a homofobia, baseados em princípios morais estanques e em conceitos muito restritos do funcionamento de uma sociedade (especialmente, neste caso, no que se refere ao bloqueio criado face à livre expressão do amor e da sexualidade entre pessoas do mesmo sexo)… devem ser erradicados da vida de todos… em prol de um mundo onde as pessoas possam usufruir e vivenciar saudavelmente os frutos das suas decisões.”.

Assim, Dulce, não se preocupe com a orientação sexual da sua filha, mas procure dar o máximo apoio a ela, porque, numa sociedade bastante homofóbica (mascarada, inúmeras vezes, sob a alçada da desejabilidade social), é bom que no seio familiar haja um acolhimento caloroso aos filhos, estando por perto quando mais precisam. Seja a sua filha homossexual, heterossexual ou bissexual, sempre vai querer sentir na mãe um porto seguro. Portanto, deve sempre preocupar-se com a sua filha, mas fornecendo-lhe todas as ferramentas e todo o apoio para que ela se sinta suportada pelas figuras mais significativas da vida dela. A fase que ela está a passar é de paixão, de amor, de vontade de assumir um compromisso amoroso. Seja com rapazes ou raparigas, é bom e saudável a sua filha estar apaixonada e envolver-se amorosamente com a pessoa que perceciona como a sua ‘cara-metade’.

Deixe a sua filha namorar livremente, procurando estar por perto para apoiá-la, em tudo o que ela precisar, e não para transformar o seu dia-a-dia numa maré de medos, inseguranças, revolta, raiva, mágoa e tristeza (culminando num crescente distanciamento entre mãe e filha e na consequente perda de qualidade de vida de ambas).


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