PsicoLab

O lado adormecido da sociedade

(breve análise de uma realidade pessoal, social e íntima)

Os sintomas e as consequências são preocupantes quando as tarefas laborais se sobrepõe de forma abusiva ao tempo que necessita para poder pensar, reivindicar, refletir, meditar, tomar decisões, escutar as pessoas, tranquilizar os filhos, descansar, praticar algum tipo de atividade física, saborear uma refeição deliciosa e/ou saudável, ler, escrever, ver uma peça de teatro, apreciar um documentário, fazer coisas inúteis, namorar, rir às gargalhadas, chorar de felicidade, chorar de tristeza, ser um ombro amigo de alguém especial, dançar, patinar, abraçar, saltar na cama, andar de escorrega, nadar, imaginar, criar, confraternizar com a família, entre tantos outros momentos essenciais para que possa almejar um equilíbrio que gere uma saúde invejável. Não se pode deixar que o contexto laboral assuma um papel quase exclusivo na vida. Ninguém contesta a sua relevância, mas pode e deve contestar o peso excessivo na vida de cada um, limitando a qualidade da mesma num sentido global. Se não procurar a homeostasia, adoece e adormece para a vida. Perde a capacidade de transformar o mundo, que é seu e de todos os outros que nele habitam. Já pensou bem no caminho que está a percorrer?

relogio

«Não tenho tempo…»; «Agora não posso…»; «Hoje não dá…». Estas expressões, a título de exemplo, usadas abusivamente contra as pessoas que nos querem amar olhos nos olhos e de corpo e alma, trituram dimensões essenciais na vida dos relacionamentos e das pessoas que habitam neles. E quando nos apercebemos que elas – as expressões supracitadas – nos perseguem e que nos fazem mal, tendemos a usar o seguinte argumento: «a seu tempo tudo se resolverá». Este pensamento, enraizado no dia-a-dia, pode significar um estado de negação de um comportamento procrastinador quanto à resolução dos problemas, cujos efeitos acoplados de sentimento de culpa vão sendo ignorados através do conteúdo que está entre aspas na frase anterior. Porém, o fenómeno não é tão simples quanto parece. Há vários constrangimentos que limitam bastante uma tomada de decisão, que gere uma mudança significativa, colocando o cenário ideal como uma solução de grandes riscos. Ou seja, se há responsabilidades do indivíduo pela inação, o «deixa estar» (isto é, ausência de reflexão e ação determinada), também há fortes culpas (utilizo este termo propositadamente) externas, das pressões, diretas e indiretas, nos contextos sociais, laborais e familiares. Independentemente da complexidade da situação, as decisões têm que ser tomadas, a não ser que seja indiferente para si quem toma as decisões na sua vida. O que está a pensar (fazer) agora?

A internet sem limites, estar contactável a toda a hora, trabalhar em casa, trabalhar na rua, trabalhar no café, pensar a toda a hora no trabalho. Está a conseguir demarcar as fronteiras dos vários espaços da sua vida (por exemplo, o casal, os filhos, a família mais alargada, os amigos do casal, os amigos de cada um, os seus tempos de lazer e aqueles em comum com outras pessoas)? Há, muitas vezes, e de forma benéfica, pontos de convergência, mas quando esses pontos passam a ser grandes áreas, numa mistura confusa e desordenada, não estará a entrar numa zona perigosa para a sua saúde e a de quem o rodeia? Não deve viver para trabalhar. Deve trabalhar para viver. Deve trabalhar para dignificar os termos «trabalhador» e «pessoa» (nem sempre respeitados simultaneamente no contexto laboral e socialmente – por vezes, mais do que seria expectável, há o desrespeito por ambos), como um excelente modelo para as gerações mais novas. Ninguém nega os (vários) benefícios do trabalho, como as pessoas que procuram trabalho e não encontram reconhecem da forma mais dura (a busca incessante sem resultados), mas transformar o trabalho no centro da vida (especialmente quando esses contextos caracterizam-se por estados de tensão contínua – pelas mais variadas razões), não é, com toda a certeza, o melhor exemplo que pode dar aos seus filhos e aos mais jovens da sociedade. Já pensou no mundo que está a ajudar a criar?

Afinal, qual é o seu papel no mundo? O «tarefismo» é o caminho da felicidade que procura? O adiamento sucessivo do investimento nas várias dimensões da sua vida, para além do pilar laboral, é um caminho desejável? O desenvolvimento humano não é redutor quando apenas dirige o seu foco para o mundo do trabalho? Já pensou encontrar momentos de «desocupação» na sua vida, ou seja, «perder tempo» com outras tarefas? Já pensou se não está numa posição de refém dentro da sua própria existência? Não estará na hora de acordar?

As pessoas precisam de si! Não aquelas que apenas pretendem que dê o seu melhor ao serviço dos seus interesses, mas também aquelas que admiram a sua humanidade, isto é, a sua capacidade de amar ao mais alto nível, enquanto pai ou mãe, marido ou esposa, namorado ou namorada, amigo ou amiga, entre outros papéis significativos. Cada um de nós procura um significado para a vida, mas sem a vivência de múltiplas experiências em diversos contextos, valorizando de igual forma esses momentos e criando linhas limitadoras (até certo ponto) de uns para com os outros, não estaremos a entrar numa pobreza de espírito e de desvalorização da riqueza da vida? Afinal, pensando bem, qual é o seu papel no mundo?

Termino referindo que a influência do trabalho nos outros contextos é o centro deste texto, mas a realidade é que a não definição de limites claros entre as várias dimensões da vida abrange todo o leque multidimensional. Portanto, estou a falar de excessos em qualquer campo que seja. O excesso, o radicalismo, a obsessão, entre outros componentes desagregadores de uma vida com qualidade exemplar, cega qualquer pessoa para a construção pessoal e social equilibradora, para o tal mundo melhor que tanto pretende construir. Não adormeça perante as exigências da sociedade e os (doentios) paradigmas instalados. Seja uma voz de força exemplar. É isso que os mais jovens esperam. Estes últimos vão sentir a falta da sua boa ação, mais cedo ou mais tarde. Quer mudar o seu mundo e o dos outros? Quer deixar um mundo mais belo quando partir e, enquanto cá estiver, sentir-se bem no dia-a-dia no evoluir das etapas desenvolvimentais, até ao final da sua vida? Se sim, procure mudar já. Mudar o presente com as aprendizagens do passado e com uma ambição humanizante perante o futuro. Está a pensar (re)começar hoje?


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