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Deixemos as crianças serem infantis

Crianca_Infantilidade_900As crianças são cada vez mais infantis, apesar de serem mais estimuladas para começarem a fazer tudo mais cedo. Qual a razão? [Beatriz Correia]

Olá, Beatriz. Obrigado pela questão colocada. O tema que levanta é complexo e exigente, pelas múltiplas leituras que se podem fazer. Farei um esforço para que o meu posicionamento seja esclarecedor.

‘Crianças’ e ‘infantis’ são dois conceitos que se conjugam perfeitamente. É estranho que, por vezes, os pais (das crianças) verbalizem, num tom de desagrado, “não sejam infantis!”, mas o cenário piora quando surge um acréscimo, num tom reprovador, “não têm idade para essas infantilidades!”. Nestas poucas linhas deixo clara a minha visão. Para mim, é positivo que as crianças sejam infantis, usem e abusem de comportamentos infantis, próprios da sua idade. No entanto, permita-me discordar com um pormenor: tenho dúvidas que as crianças sejam cada vez mais infantis e que lhes seja dado esse espaço e tempo. Há muita margem para serem mais infantis. As crianças têm mesmo que ser infantis! Isso não as impede que venham a ser adultos de excelência. Aliás, considero mesmo que a sua infantilidade fará delas melhores pessoas, mais preparadas e com um maior bem-estar geral.

Demasiadas vezes, os adultos desrespeitam as crianças, não deixando que elas exerçam o seu papel principal: serem crianças, com boas doses de infantilidade. Logo, tiram-lhes protagonismo, que será útil para a sua livre expressão. Por parte dos adultos, com elevada frequência, há exigências desmesuradas para o quotidiano das crianças, impondo-lhes, com toda a força (e pressa) para o seu tempo e espaço, ‘adultices’. Não só pelo medo do futuro (o desemprego, as políticas, as incertezas); não só pelo paradigma individualista e ultracompetitivo (os rankings, as comparações com os outros, a competitividade levada ao extremo – em forma de “o meu tem que saber mais do que os outros e ser melhor, a todo o custo!”); não só pela desejabilidade social (o que não fica bem aos olhos dos outros, o medo de fugir ou estar fora da norma); não só pela falta de procura de conhecimentos válidos, pela ausência de momentos reflexivos, pela inexistência de competências básicas e pela incapacidade de olharem, de uma forma séria e responsável, para o interior dos problemas e para os desafios da sociedade; não só por tudo o que foi mencionado, mas também por isso.

Estas faltas e falhas transportam consigo consequências graves, pelo facto de não respeitarem o tempo e o espaço essencial para um bom crescimento e desenvolvimento das crianças.

Em boa verdade, quando queimamos etapas às crianças estamos a prejudicar a sua qualidade de vida, o seu bem-estar consigo próprias e com os outros, a comprometer negativamente o seu futuro – nos vários contextos e na imensidão de dimensões psicossociológicas.

Bem sabemos que o mundo corre num ritmo bastante acelerado e que, nesse trajeto, acopla grandes complexidades, mas é má estratégia correr abaixo dos 10 segundos por cada 100 metros numa prova de maratona. A certeza que não chegará à meta (em tempo útil) é claríssima. A enorme dificuldade que terá em lidar com a frustração é óbvia, porque a perceção com que ficam é que deram tudo o que tinham para dar e que, mesmo assim, não conseguiram terminar a prova e ganhá-la. Esquecem-se, pois, que o vencedor nem sempre é o mais rápido (para além de que pode haver muitos mais vencedores do que o 1.º classificado), pois quem consegue aliar a rapidez à gestão de esforço tem melhores resultados. Conjugando também as opções mais eficazes do ponto de vista técnico-tático, a disciplina através de treinos diários, ajustados a cada um, o descanso e os momentos lúdicos (que geram aprendizagens fundamentais).

Termino acrescentando o seguinte: deve-se estimular as crianças para serem crianças, para brincarem, para se abraçarem, ajudarem os outros, acreditarem em si, adquirirem conhecimentos, assumirem responsabilidades, conhecerem regras, mas não para fazer tudo mais cedo (para saberem antes dos outros e mais do que eles).

Estimular uma criança a fazer tudo mais cedo está longe de ser uma boa fórmula para acelerar o amadurecimento e aumentar o grau de compromisso com o sucesso. Por sua vez, acaba por desmotivá-las, pressioná-las agressivamente, aumentar os estados de frustração (e a incapacidade de lidar com eles), aumentar-lhes o insucesso pessoal, social, escolar, académico e profissional.

A sociedade tem que deixar de dizer, aos ouvidos das crianças, ‘Vá lá, mexe-te! Não há tempo para criancices!’. Elas sentem estas palavras (e, muitas vezes, não compreendem)! Por isso é que acabam por ter momentos explosivos, num rugido sem legendas, cuja interpretação poderá ser a seguinte: ‘Será que hoje posso ser criança pelo menos uma vez?!’. É sendo criança, de forma infantil, que se caminha saudavelmente para a maturidade, que se consegue ser autónomo, que se sabe pedir ajuda e dar a mão a quem mais precisa. É passo a passo, etapa a etapa, que se vai conhecendo o mundo e crescer com sabedoria.

Pode-se e deve-se estimular as crianças com brincadeiras ao ar livre, com um abraço não cronometrado, com atividades que as ajudem a meditar, com períodos de tempo em que possam apreciar o natural e o belo, com momentos que lhes permitam cair, sujar-se, errar e chorar, e com outros que lhes permitam levantar-se com convicção, demonstrarem as suas perícias com determinação, rir a bem rir, criar pela leitura, pelo desenho, pelas palavras, pelos gestos.

Noutros tempos as crianças tinham um espaço menos privilegiado na sociedade e nas famílias, com pouquíssimos direitos de criança e muitos deveres de adulto. Atualmente, apesar da realidade prática ainda ter muito para conquistar, há um maior respeito e luta pela liberdade de expressão – emocional, intelectual e comportamental – das crianças. Logo, não teremos todos nós, profissionais, pais e indivíduos da sociedade, uma grande responsabilidade sobre a forma como estamos a apresentar o mundo às crianças? Não estaremos muito enraizados às lavagens políticas (provindas de vários meios)? Não estaremos muito colados às análises fatalistas, ao invés da centração na resolução dos problemas e na criação de alternativas mais eficazes, no respeito pelas individualidades e pelo desenvolvimento adequado (e não apressado)? Não será o nosso papel principal usar a sabedoria (que se constrói na partilha e na aprendizagem com os outros, numa conjugação com a memória histórica), como modelo de excelência para as crianças, e não usar e abusar dos amuos, das críticas destrutivas, da demonstração continuada da incapacidade de lidar com as dificuldades do quotidiano?

Se nos prendem com as exigências de adultos quando somos crianças, não nos deixando libertar a infantilidade no tempo certo, é esperado que as janelas de oportunidade da sua libertação sejam aproveitadas, muitas vezes, por falta de possibilidades anteriores, mais tarde do que o previsto e, nalguns casos, sob a forma de comportamentos de risco, pelo domínio da euforia, pelo culminar de uma liberdade nunca antes sentida (pois estava aprisionada).

Portanto, estimulemos as crianças com responsabilidade. Permitamos que construam um mundo melhor, através do nosso melhor exemplo. Ajudemo-las a criar asas para bem voarem, em vez de lhes impormos umas asas que não lhes servem (i.e., insistirmos nas exigências despropositadas) ou, numa perspetiva que poderei abordar futuramente, umas asas que as façam voar para um mundo perdido (i.e., oferecermos ilusões, não darmos o mínimo de orientação ou orientarmos com métodos erróneos – por exemplo, quando entramos no campo da ‘super(des)proteção’, do desleixo, da negligência, da agressividade, da intransigência ou da violência, entre outros fenómenos).


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