Bisturi

Complexo de Deus: o ideal da perfeição!

“O Médico que só sabe Medicina, nem Medicina sabe” [Abel Salazar]

Na semana que findou, vimos partir uma das maiores referências da Medicina Portuguesa de todos os tempos, João Lobo Antunes.

Médico, Neurocirurgião, Cientista, Escritor, Ensaísta, o Príncipe da Medicina, da Neurocirurgia, da Ética e das Letras deixou-nos um legado eterno e imaterial.

Médico humanista, dedicou a sua vida aos outros, ao conhecimento, à inovação perseguindo constantemente a perfeição com uma visão sempre mais longínqua que o a do seu tempo presente.

Não deixa de ser irónico, alguém que travou e lutou contra a grande tragédia da vida, nos deixe assim tão cedo e abruptamente vítima de uma patologia tão severa, corrosiva e destrutiva como o cancro.

Perdemos um grande escritor, numa altura em que o bisturi da vida de Lobo Antunes era a escrita.

Todos sabemos que vamos morrer, mas é impossível estarmos preparados para o dia em que deixaremos de ver os que nos são queridos, os que nos inspiram e os que idolatramos.

Sobre a vida, João Lobo Antunes falou-nos da sua vontade de viver: “ quando olho para a minha vida, diria que o futuro sempre me aconteceu e eu não dei por isso. Nunca tive uma meta (…). Portanto, quando dava por isso, o futuro já cá estava. De maneira que estou tranquilo. Queria ter uns anos mais, queria ter uns anos mais.”

Contou-nos o seu medo de perder a memória: “No balanço entre as coisas que recordo e as que procuro esquecer ficam sobretudo aquelas em que me afastei de mim próprio, da minha razão de ser. Em que não fui fiel a mim próprio. Essas são irreprimíveis. Tive ocasião de ser eu próprio operário dessa transformação e de perceber como a doença trata a memória das pessoas. As pessoas sem memória são navegadores sem bússola. É das maldições piores que existem.”

Destaco a forma como partilhou a sua transformação e aprendizagem com a doença: “Há anos escrevi que não se pode dizer com os olhos aquilo que se nega com a palavra. Diria que foi a experiência da doença que me tornou mais sensível. Como se tivesse esticado a corda do violino e esta vibrasse ao menor toque, com maior intensidade e frequência. Por isso, mais do que uma mudança sofri uma evolução, que introduziu outra doçura na relação com as pessoas.”

No balanço final sobre a doença diz-nos:

“A doença convida ao exame da vida, provavelmente a única circunstância em que chegamos próximo da análise lúcida do caminho percorrido. Então regressam à cena os actores esquecidos da nossa biografia. Voltamos a viver os momentos em que subimos mais alto do que alguma vez aspirámos, ou descemos àquela profundidade em que a vergonha nos perdera. Ouvimos novamente as palavras que deveríamos ter contido ou então, pelo contrário, as que ficaram por dizer. Contabilizamos o balanço final e escrevemos, com um sorriso e um travo de amargura, o último currículo.”

Certo dia fora questionado sobre como um professor de medicina, neurocirurgião tinha tempo para escrever, apropriando-se do real, das pessoas como personagens, da vida como história dizendo que “a minha vida só tem dois tempos, o tempo das mãos e o tempo da cabeça. Em primeiro lugar, falo muito pouco com pessoas, de modo que todos os momentos de silêncio são de reflexão, quando escrevo já tenho tudo escrito na cabeça, sai-me de um fôlego.”

Como grande preocupação deixou-nos a importância do humanismo do médico na relação médico-doente, algo que tecnologia nenhuma substitui.

Acreditava que o poder da cura das suas mãos, o poder de modificar a vida e a morte de uma pessoa, um poder quase divino de decidir o tempo da pessoa vida era antes de tudo um poder que deriva do serviço à pessoa.

Tal como dizia, estes dias da sua perda, tal como os dias em que perdia um paciente, são dias de chuva e de luto.

Estamos todos curvados de luto perante esta perda inestimável para Portugal, do nosso Príncipe da vida, herói de tantas vidas…


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