A mãe que o coração me levou a ser

Luto diariamente para que respeitem o papel que assumi como mãe, que na sociedade actual não é valorizado… A pressão sobre as mães que decidiram ter tempo para os filhos é de tal forma violenta que por vezes nos deixam num estado de inferioridade por não termos um trabalho remunerado, descrevem-nos como parasitas… Não imaginam a luta interior que existe numa mulher quando se vê confrontada em ter que escolher entre uma profissão que lhe ocupa 5 dias por semana perdendo a contagem das horas que a empresa exige, com a dedicação aos filhos.

Em determinada altura da minha vida percebi que ao dar o passo para ser mãe era muito mais do que dar vida, era um trabalho contínuo, de grande responsabilidade e não me fazia sentido entregar os meus filhos para serem criados por outros, especialmente nos primeiros anos de vida… ser mãe o máximo de tempo possível passou a ser o meu foco e assim o fiz mal o meu primeiro filho nasceu, fiquei em casa dedicando-me exclusivamente ao seu primeiro ano de vida… Com isso tive que contar com o apoio do pai para que a qualidade de vida não fosse negligenciada… Luxos não existiam, não podíamos acompanhar os amigos nas viagens intercontinentais, jantares de convívio todos os fins de semana e por aí fora… Não é uma decisão fácil de tomar quando somos formatados para nos licenciarmos para com isso termos um emprego à altura… Observava o trajecto profissional dos que me rodeavam, todo o sucesso que tinham, “invejava” a independência das minhas amigas, tanto financeiramente como pela posição de terem um emprego ( valor acrescentado na sociedade) e eu estava em casa no meio de sopas, fraldas, birras… E a lutar diariamente com a minha decisão, que me trouxe momentos de desorientação total, por um lado o meu coração estava totalmente preenchido por saber que o meu filho tinha tudo aquilo que só uma mãe podia dar por outro sentia-me desperdiçada por não estar a construir uma carreira profissional. Por esta pressão que eu própria deixei crescer em mim acabei por inscrevê-lo num infantário e procurei um emprego, constatando que quando ele ficava doente não era eu que o acompanhava, já não era eu que cozinhava para ele, já não via as habilidades que cresciam dia após dia, já não era eu que acalmava as birras, já não era eu que o adormecia… A tão desejada carreira trouxe-me sucesso, dinheiro, a independência que ” invejava” mas tirou-me o pormenorizado crescimento do meu filho. Mas como aquilo que vive no coração prevalece, mal o segundo nasceu despedi-me e acompanhei-o durante 2 anos, mas como não estava suficientemente conformada, voltei a ter que lutar com o meu interior, a carreira ou ser mãe em exclusividade. Infelizmente um trabalho digno, com qualidade em part-time neste país é escasso e por isso nunca foi uma opção.

Mas como nada é por acaso e hoje é uma constatação, tudo é possível quando o Amor é a nossa única direcção. Agora sim começo arrumar a casa do meu interior com as acções devidas no exterior, muito tive que crescer, amadurecer para perceber que o caminho é feito de prioridades e se ser mãe foi uma delas e se assumo nobremente esse papel, Deus estará sempre do meu lado, mesmo quando tudo parece impossível. Hoje vivo numa harmonia quase perfeita, entre ser mãe a tempo inteiro e tudo o resto que ainda se respira por esta não ser a opção ideal para grande parte de quem me rodeia. Um especial agradecimento ao pai dos meus filhos, que apesar de já não viver connosco, permite o sustento físico deles para que eu me possa dedicar exclusivamente ao belo e sustentado caminho que eles merecem, assim como todas as crianças deveriam ter. Para este papel existir, deixei de pensar em mim como uma potencial competitiva no mercado de trabalho, acabaram-se os sonhos de férias paradisíacas, programas que exigem dinheiro… Tudo é feito em paz e humildade por saber que este foi o caminho que escolhi e hoje assim vivo em aceitação do que criei no passado… E feliz com a minha escolha sempre que para eles olho… Com isto não me reneguei, estou atenta e em constante observação aos sinais que o Universo me vai indicando no sentido da criação do trabalho que melhor se encaixe nesta harmonia já hoje conquistada.


Patrocinado

Apps PT Jornal

Descarregar na App StoreDescarregar do Google Play

Newsletters PT Jornal

Selecione as newsletters

Mais partilhadas da semana

Subir
error: