Bisturi

A luta contra a injustiça não tem género

Autor: Teresa Morais

Face ao que se passou nestes dias, a calma desapareceu e deu lugar à revolta de quem se depara com uma grande injustiça. De quem já suspeitava, mas ainda não quer acreditar que por detrás da fachada de uma modernidade tolerante se escondem machismos e preconceitos graves.

Diz o Conselho Superior de Magistratura que tem organizado sessões de formação acerca do fenómeno da desigualdade de género. É o melhor que tem para oferecer, não só às vítimas de maus tratos e de acórdãos injustos, como também a todas as mulheres que se indignaram e a todas as mulheres – as machistas e as mentalmente sãs -, no geral, já que nenhuma delas está livre de ser vítima de violência de género.

O Estado de Direito é fundado como resposta à imprevisibilidade da vida e do ser humano. Na saúde e na pobreza, no sucesso e no falhanço, a função do Estado é de protecção dos mais desfavorecidos, de reforço da segurança, de cumprimento dos valores de inviolabilidade da vida e protecção da dignidade humana.

Contra tudo isto, com descaramento e desprezo e machismo atroz, eis que, em 2017 surge a dupla Neto de Moura e Maria Luísa Arantes. Não são caso único, mas expressão extrema desta tendência da sociedade e de alguma jurisprudência de achar que às mulheres é exigida mais fidelidade do que aos homens. Que certas mulheres “fazem por merecer”. Que as mulheres não passam do sexo fraco e devem estar subjugadas à sacralização da masculinidade.

Estamos aqui a falar de dois juízes, gente minimamente inteligente e com acesso a informação. Duas pessoas que estão assustadas com a actualidade. Que assistem, estupefactas, à capacidade de liderança, de autonomia, de independência das mulheres, à promoção da igualdade e diversidade por parte de mulheres e homens seguros de si. São redutos de um machismo que ainda é regra. Não nos enganemos. É regra! Se assim não fosse não teríamos o Conselho Superior de Magistratura a lavar as mãos como Pôncio Pilatos.

A boa notícia é que se houver reacção, se finalmente os tais homens e mulheres do futuro falarem a uma só voz para este retrocesso civilizacional, daqui a vinte anos Moura e Arantes não passarão de violinos do Titanic, aqueles que tocavam enquanto o barco se afundava. Para que isso aconteça, é necessário que, de uma vez por todas, nos capacitemos de que:

O adultério é uma realidade da vida. Condenável, imperdoável para muitos, mas que nunca, em circunstância alguma, legitima ou atenua a violência gratuita. Se assim fosse, se o castigo fosse legítimo, as estatísticas diziam-nos que a quantidade de pessoas agredidas seria enorme. Poderíamos ter surpresas várias nas nossas vidas. E, com certeza, o número de homens agredidos seria muito maior do que o número de mulheres.

As nossas pessoas também traem. Olhem à vossa volta e constatarão que algumas pessoas por quem nutrem afecto já traíram. Gostavam que essas pessoas fossem tratadas com a violência e a injustiça com que a mulher em causa foi tratada?

As mulheres não têm maior dever de fidelidade, e, por oposição, os homens não têm menor responsabilidade quando traem. Independentemente dos critérios de cada um em relação ao perdão destas situações, a noção de que está “na natureza dos homens trair” não tem fundamentação científica. É produto de anos de cassete de desigualdade de género e pseudo-bons costumes. A mesma cassete que Neto de Moura leva ao extremo de cada vez que põe mulheres em risco de vida com a atribuição de penas suspensas.

Não há, no Novo Testamento, qualquer referência a maus-tratos de mulheres ou homens adúlteros. Pelo contrário. Vejamos o Evangelho de São João:

Porém Jesus foi para o monte das Oliveiras;  E pela manhã cedo tornou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, e, assentando-se, os ensinava. E os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério; E, pondo-a no meio, disseram-lhe: Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio acto, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu pois que dizes? Isto diziam eles, tentando-o, para que tivessem de que o acusar. Mas Jesus, inclinando-se, escrevia com o dedo na terra.

E, como insistissem, perguntando-lhe, endireitou-se, e disse-lhes: Aquele que de entre vós está sem pecado seja o primeiro que atire pedra contra ela. E, tornando a inclinar-se, escrevia na terra.

Quando ouviram isto, saíram um a um, a começar pelos mais velhos até aos últimos; ficou só Jesus e a mulher que estava no meio.

E, endireitando-se Jesus, e não vendo ninguém mais do que a mulher, disse-lhe:  Mulher, onde estão aqueles teus acusadores? Ninguém te condenou?

E ela disse: Ninguém, Senhor. E disse-lhe Jesus:

‘Nem eu também te condeno: vai-te, e não peques mais.’

Depois de citar a Bíblia, pouco fica por dizer.

Apenas referir que a luta contra a injustiça não tem género e que por isso esta é uma luta de homens e mulheres. Porque apesar de gostarmos de pensar não vai acontecer no nosso círculo mais restrito, a vítima podia mesmo ser nossa irmã, nossa mãe, nossa filha.


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